sábado, 7 de junho de 2014

O perfume


Espírito Santo. A Igreja tem muita história: vinte séculos de história de mãos dadas com Deus pelos caminhos do mundo ao encontro de todos os povos e culturas. E dentro da história da Igreja para o mundo com Deus existem muitas estórias. Surpreende-me sempre a fanfarronice da Igreja que, como a Pedro, brota da crença obscura de que bastam as forças próprias da razão e dos músculos para levar a Salvação até aos confins da Terra. E não bastam. Sempre que a Igreja operou dentro deste registo jamais a barca abandonou a barra ou então não chegou a bom porto: quero dizer, nesse caso, a Igreja anunciou-se mais a si mesma e menos a Cristo.
Precisamos, por isso e sempre, que brote no nosso interior o Espírito renovador do Ressuscitado.
Era domingo. A mãe de António entrou esbaforida no quarto do filho e gritou:
– Vamos, vamos filho! Hoje é domingo e levantas-te mais cedo. Já está na hora de ir para a igreja!
Mas, Tone, o filho, mal dormido e de mau humor, respondeu:
– Não me apetece ir à missa! Hoje fico na cama até ao meio dia!
– Mas que ideia, filho!, respondeu a mãe. Vamos, depressa!, continuava ela a gritar.
– Não me apetece ir à missa! Hoje fico na cama até ao meio dia! Eles não gostam de mim.
– Deixa-te de disparates, rematou a mãe. Vou dar--te duas razões para ires à missa: primeira, já tens mais de quarenta anos! Segunda, tu é que és o pároco!
Não sei se a historieta é verdadeira, mas se não o fôr é bem esgalhada. E ao mesmo tempo faz--me lembrar os Apóstolos. Os primeiros. Então não é que no domingo passado receberam a ordem do Senhor: Ide e anunciai o Evangelho?
Sim, é verdade que receberam. Receberam uma ordem de envio, um mandato para rasgar horizontes. Porém, mal se vêm sós, logo depois da ascensão de Jesus, prontamente se escondem e se encurralam no Cenáculo. Enfim, são covardes!  São o que são e já não é de agora que o são. Havia, aliás, poucos dias, que fugindo e abandonando-O, deixaram morrer o Mestre e Amigo.
Após a Ressurreição eles, os Apóstolos, sabem a bom saber que a sua presença  testemunhal não é simpática para os demais judeus e sabem, é claro que sabem, que a notícia da Ressurreição não é fácil de aceitar e entender. Eles sabem que mal abram a boca vão ser apontados a dedo e, como não, até talvez amaldiçoados e escorraçados. E então calam--se. E anulam-se e trancam-se e acobardam-se. Eles sabem que falar do Crucificado é altamente perigoso, pois Ele fora recentemente sentenciado. Eles sabem que a religião é por vezes um potente sala dos espelhos que distorce a imagem mais pura; por isso, eles temem a incompreensão e a hostilidade.
Eles sabem e nós também. Nós também sabemos executar na perfeição a marcha à ré e o recuo atempado para a segurança das trincheiras do Cenáculo. E foi por isso que se deu o Pentecostes, a efusão do Espírito Santo: porque  os discípulos de Jesus temos medo!
Sim, porque existe medo existe Pentecostes! Sempre que existir medo existirá Pentecostes. Sempre que alguma vez algum discípulo de Jesus se sinta tolhido haverá Pentecostes!
O Pentecostes é o antídoto para o medo e para o sono, para a depressão e a preferência pelas portas fechadas!
Pentecostes é sempre! Porque sem a presença do Espírito Santo na sala do nosso coração nós continuaríamos sonolentos e depressivos, inactivos e inanes, medrosos e incapazes.
Pentecostes é a passagem das (falsas) seguranças do Cenáculo para os desafios dos múltiplos lugares, dos caminhos longos, das amplas planícies, dos rios caudalosos, das montanhas inexpugnáveis, das diferenças culturais. Pentecostes é abandonar o terreiro da Jerusalém local e fazermo-nos ao caminho até chegar a todas as línguas e culturas, a fim de proclamar-lhes o Evangelho da salvação com a força que o Espírito sopra em nós.
Por sinal, o Evangelho não é mensagem encriptada que só possa ser recebida por quem previamente possua o código; o Evangelho é palavra vivificante e universal dirigida ao arco-íris de todas as cores e raças.
O Espírito Santo é o substituto de Jesus. Na Sua ausência o Espírito maravilha os passos das nossas vidas e o caminhar das nossas comunidades. Ele derrama-se em nós com a suavidade de um perfume, cujas fragâncias inundam as divisões de uma casa.
O Espírito que animou Jesus é o mesmo que anima a nossa interioridade e nos encoraja, porque só a presença interior e o poder do Espírito Santo pode vivificar, dinamizar, libertar e divinizar a frieza e rudeza de todo o trabalho eclesial e humano. O Espírito Santo fala e (con)vive em segredo no nosso coração.
Busquemo-lo em segredo.

Chama do Carmo I NS 232 I Junho 8 2014

domingo, 1 de junho de 2014

Não há plano B!


Ascensão. Celebrar a Festa da Ascensão do Senhor Jesus ao céu é celebrar outra modulação da sua vitória. Que Jesus tenha ressuscitado, isto é, que o amor do Pai o tenha resgatado das garras da morte, isso é a sua vitória. Mas também faz parte da vitória de Jesus (E da nossa também, já agora) que tenha subido ao céu e se tenha sentado à direita do Pai, como vencedor.
Subir ao céu é, obviamente, uma maneira muito humana de se falar, enquanto que dizer ressurreição e ascensão é a maneira teológica de dizer a mesma glória.
Neste domingo celebramos Jesus glorioso e vitorioso na sua ascensão.
Durante quarenta dias vimos celebrando a Páscoa como um só dia. Parece um longo retiro em que a Igreja vai sendo preparada e convidada a desabrochar. Ao fim de quarenta dias (Na realidade, completaram-se na Quinta-feira passada) celebramos a sua subida ao céu. Durante este longo período o Senhor apareceu várias vezes a diversas pessoas, a quem se mostrou vivo e a quem foi catequizando. As aparições foram individuais e colectivas, e todas serviram para reforçar a Igreja na fé da ressurreição, prepará-la para a promessa da vinda do Espírito Santo, e para a tarefa de O testemunhar vivo, senhor e triunfante.
Ao longo dos dias pascais Jesus deixou-lhes (e deixou-nos, porque a tarefa se prolonga e deve ser permanentemente re-inventada por nós) uma tarefa em duas partes: 1) Encontrar-se com Ele, o Ressuscitado; 2) Testemunhá-lo pelo mundo fora.
Hoje, Domingo da Ascensão, celebramos a última de todas as aparições do Ressuscitado. Quase poderíamos dizer que o seu último acto histórico. A última aparição de Jesus é também aquela em que ele deixa de ser visto (Mas este visto tem de ser lido com muito cuidado, porque a ressurreição não foi o regresso ao estado corporal anterior à morte, nem à sua actividade anterior...) por que elevado ao céu. Por isso, a este Domingo chamavam os cristãos antigos o Domingo em que Jesus se sentou à direita do Pai.
Sentar-se à direita quer dizer ser pelo Pai honrado e glorificado; quer dizer, ser declarado Senhor de um ao outro e a todos os confins da Terra. Reconhecer Jesus como Senhor quer precisamente dizer que Ele é o modelo do servidor, e jamais imperador. É por essa razão que vendo-O pela última vez, elevando-se e afastando-se do nosso olhar e da nossa presença, para a direita do Pai, os discípulos não podemos restar parados olhando as nuvens.
Ficar olhando eternamente as nuvens, mesmo que seja em angelical louvor é a maior traição da Igreja a Jesus.  Nós não podemos ficar saciados de olhar olhar contemplativo posto no céu. Não, porque ainda existem tarefas por cumprir: é preciso levar a mensagem de Jesus até aos confins da Terra. E enquanto a mensagem não fôr conhecida por todos não podemos nós parar! Foi por isso que Jesus prometeu enviar a força do alto — o Espírito Santo: para que trabalhássemos pela causa do Evangelho até Ele voltar. A isso chama--se ser missionário. Missionário, sempre!
Conta-se que quando Jesus Ressuscitado chegou a sua casa, o céu, e se sentou à direita do Pai, todos os anjos se envolveram numa festa de arromba para lhe dar as boas vindas. Havia de tudo na festa: balões, foguetes, música, fitas e confetis e até um imenso cartaz que proclamava: «Bem-vindo a casa, Jesus! Missão cumprida!».
Então, um dos anjos entrevistou Jesus para um canal de TV; e logo lhe perguntou sobre os trinta e três anos que vivera entre os humanos. E rematou perguntando inesperadamente:
– Olá, Jesus! E agora que deixaste a Terra quem é que vai continuar a tua tarefa?
– Onze homens que me amam, foi a resposta.
– E se eles fracassarem?, insistiu o anjo. Qual será o
teu Plano B?
– Mas não,  não existe Plano B algum...

A ausência do Plano B é a Solenidade da Ascensão do Senhor. Celebramos hoje, obviamente, o regresso de Jesus a casa; mas, celebramos, sobretudo, a presença de Jesus no meio dos que O amam. Não foi Ele que disse «Eu estarei sempre convosco todos os dias até ao fim do tempo»? Sim, este é o nosso tempo. O tempo de em assembleia, em Igreja, e como discípulos, dizer-mos a Palavra mesma, dizermos todo o amor de Jesus pela humanidade! E sem que exista Plano B! Temos apenas a promessa de que o Espírito de Jesus sempre nos animará e nos acompanhará.
Jesus já cumpriu a sua missão, cabe-nos agora cumprir a nossa: ir, sair, anunciá-Lo. Este é o tempo do testemunho ardente, da missão incansável, de marcar o mundo com o selo da justiça e da verdade de Deus.
O latido do nosso coração só tem um timbre: amar com o mesmo amor de Jesus os que profeticamente Ele amou, porque a melhor mensagem da Ascensão de Jesus é esta: Ele foi para o céu mas ficou entre nós!

Chama do Carmo I NS 231 I Junho 01 2014

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Voltarei!

Promessa. Celebramos o sexto domingo da Páscoa, domingo a que alguns quase chamam o último do tempo pascal. Na verdade, a Cinquentena Pascal está longe de estar concluída, por que cabe-nos celebrar ainda as solenidades da Ascensão e do Pentecostes. Porém, havemos de reparar no cuidado pedagógico da Igreja: a Páscoa é um só dia, é um todo, mas celebrado separadamente, quer se dizer, por que apresentada por partes ao nosso coração ajuda-nos a viver melhor e a celebrar melhor a grande alegria pascal — o Senhor Ressuscitado. A ressurreição de Jesus é um tão grande mistério ou realidade dinâmica que para o saborear bem deveremos procurar contemplá-la desde a riqueza dos diversos ângulos que se nos apresenta.
Antes de celebrar a Páscoa preparámo-la durante os quarenta dias precedentes, e depois celebrámo-la longamente no decurso dos cinquenta dias subsequentes. A Páscoa é portanto um quarto dos dias do ano. Tal peso tem de marcar-nos profundamente e obrigar--nos a olhar para Jesus de uma maneira encantadoramente feliz. A Páscoa é tão impactante que durante os cinquenta dias pascais vão passando aos nossos olhos e pelo nosso coração os dias de Jesus, melhor dito, os seus últimos dias, sobretudo, os que começam com o último tramo da subida à cidade de Jerusalém — onde haveria de entregar-se livre e totalmente através da sua paixão, morte e ressurreição. O acesso à compreensão de tão terrível e obscuro drama humano vivido por Jesus e por extensão os seus discípulos é tarefa assaz difícil, mais e mais porque na morte de Jesus eles viram frustrados os seus planos de glória e de triunfo pessoais. Mas mais difícil ainda é entrar definitivamente para dentro do cenário jubiloso e triunfante da Páscoa, por que os dias da Páscoa têm, para nós, uma marca muito profunda: a vitória de Jesus. E a sua vitória é a luminosa correspondência à sua glorificação, e a glorificação de Jesus é conforto para os seus discípulos. As sucessivas aparições do Ressuscitado confortam e animam os discípulos singularmente e em comunidade
— «Não tenhais medo!», diz-nos Ele.
E dá-lhes (-nos) a Sua paz.
Bem me parecia que se não se passar pelo sentimento depressivo da perda de Jesus, que desaparece da nossa vista tragado pela morte, não saberíamos como se haveria de instalar em nós a alegria de O (pre)sentirmos para sempre presente por que ressuscitado.
(Tal como a aurora anuncia a vitória da luz sobre a noite, assim a ressurreição é vitória confirmada sobre a morte, porque o Ressuscitado é o Crucificado, o Glorificado é o que esteve morto.)
A Páscoa é a certeza da presença. É a vida de Jesus no coração dos seus amigos e da sua Igreja: Jesus está, de facto, de novo, connosco. Para sempre. Muitas coisas dissera e prevenira Ele anteriormente. A Última Ceia, por exemplo, foi densamente entranhável, razão pela qual os Apóstolos perceberam quase nada. E como eles os discípulo de hoje, cada um à sua maneira, não percebe ou vai percebendo quase nada de Jesus, pelo que nos cabe ir fazendo o nosso caminho com o Espírito Santo que há-de recentrar-nos de novo na verdade do coração de Jesus, que só nos ama e por isso vem para nós.
Procuremos todos ir caminhando. Com Jesus. Caminhar escutando a Palavra; caminhar desde os carreiros dos nossos mundinhos para as avenidas de Deus.
Nestes domingos da Páscoa temos escutado o Discurso de Despedida, que, segundo João, Jesus falou aos seus discípulos depois da Última Ceia, prevenindo-os do seu desaparecimento. Disse--lhes ainda muitas outras coisas; disse-lhes palavras ao coração que eles não souberam ouvir por não estarem preparados para tal; disse-lhes que o Espírito Santo viria como defensor deles e também para recordar-lhes tudo o que anteriormente Lhes dissera. A poucas horas de ser traído por um dos seus e de entrar na sua paixão, e perante tamanha perturbação dos seus, Jesus parece que desliga da sua angústia e se lhes revela ainda mais próximo, mais amigo, mais irmão, dizendo-lhes: «Eu voltarei!», «Não vos deixarei órfãos!».
Ó palavras estupendas, claras, cheias de promessa e de vitória. Jesus promete voltar! Podemos crê-lo? Como poderemos estar certos? Eis a única resposta possível: O Espírito Santo que o Ressuscitado há-de derramar em nós fá-Lo-á habitar em nossos corações, e nós experimentaremos o Vivente em nós como Presença real e actuante.
São Paulo ensina que ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor» se não fôr previamente inspirado pelo Espírito, e é só porque vivemos no Espírito Santo que experimentamos todos os dias Jesus como Alguém presente e vivo, ou, por outras palavras, só pelo Espírito é que sabemos que Ele regressa para nós e nós vêmo-Lo de verdade!

Chama do Carmo I NS 230 I Maio 25 2014

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Acesa a Chama do Encontro 2014

Está de novo acesa a “chama” que conduzirá ao Encontro 2014.
Dando continuidade à iniciativa começada há dezanove, continuamos empenhados em fazer chegar a chama do encontro/ convívio a um número maior de colegas.
Gostaríamos de contar com a tua presença nesta 19.ª edição e aumentar o número de participantes, alargando este espaço/tempo de convívio a um número cada vez maior dos nossos amigos de infância e juventude. Para isso é imprescindível que cada um dê a sua colaboração, contactando os colegas e animando as suas “redes sociais”, para que ao receber a convocatória ninguém se sinta um “estranho” ao evento por não saber se encontra algum colega/amigo de ano. Contámos, pois, com a tua ajuda na divulgação do evento, passando a palavra aos teus conhecidos, pois a tarefa é de todos. Essa é a melhor forma de divulgação!
O encontro deste ano realizar-se-á no dia 28 de junho.
De acordo com as sugestões formuladas no encontro anterior, teremos o seguinte programa:
- A partir das 10.30h: concentração (Quinta de Deão);
- 13h: Almoço partilhado;
- Tarde: convívio, jogos, piscina, etc.;
- Lanche;
- Final da tarde: saída para Viana;
- Eucaristia de encerramento;

Mesmo que não possas estar presente, envia uma mensagem de união, fazendo-te presente. Ao mesmo tempo, os teus dados serão atualizados, para que possas ser contactado.
Para qualquer esclarecimento e confirmação da presença, aqui ficam os contactos: José Manuel Gemelgo Reis (jmanuelreis@sapo.pt; 919157437); Eugénio Afonso (carpintaria@mail.telepac.pt; 932345691); P. Carlos (carlos@carmelitas.pt.).

Saudações amigas,
Pela Comissão Organizadora

José Manuel Gemelgo Reis

sábado, 17 de maio de 2014

Não se perturbe o vosso coração!

Herança. A narrativa evangélica que lemos neste domingo é retirada mais uma vez do evangelista João. Tomando-a nas mãos e lendo-a apercebemo-nos que é um texto denso, densíssimo, como só poderia ser um texto de testamento. Era tradição entre os judeus que chegada a hora de abandonar este mundo, o pai, numa última refeição, reunisse os da sua casa e lhes legasse o seu património, quer material quer espiritual.
Eis, portanto, hoje, o legado que Jesus nos deixou na Última Ceia. O evangelho que lemos neste domingo é parte das palavras testamentais de Jesus. São palavras profundas pelas quais Jesus se nos entrega confiadamente e se nos dá a conhecer intimamente, se nos propõe como caminho que leva para Deus e se nos apresenta como Deus, como caminho, verdade e vida. Antes de morrer, para todos e em partes iguais, Jesus legou-nos a sua paz desejando a todos um coração pacificado. Mas é uma tarefa inacabada e a realizar todos os dias.
Dificilmente poderíamos imaginar uma palavra melhor e mais forte para os dias do tempo pascal. Pessoalmente gosto de cotejar ano a ano o aturdimento dos discípulos aferrolhados pelo medo do futuro. Mas se gosto dessa cena negra é por que o Ressuscitado há-de entrar para dentro do seu negrume e conferir-lhe a claridade da paz que só Ele pode dar e espairecer-lhes as almas!
«A paz esteja convosco!» e «Não se perturbe o vosso coração» soam-me a igual. E dizem-me que a Páscoa não foi parte que apenas tocou a Jesus, por que ela envolve também a humanidade inteira posta diante da ressurreição de Jesus a fim de passar do medo para o júbilo e para o êxtase.
A Páscoa toca-nos as fibras mais secretas e mais íntimas do coração, lava-as e pacifica-as, abre-lhe os gonzos do medo e deixa penetrar a Luz que vence. Hoje como ontem não creio que saibamos dizer Páscoa, isto é, toda a pura densidade do mistério acontecido na vitória de Jesus. Podemos dizer muitas palavras e elaborar teorias, mas faltar-nos-á o reconhecimento e aceitação do desassossego do coração impotente e amarfanhado pelos laços da morte, que há-de, depois, sobressaltar-se com o inesperado da derrota dos inimigos.
Nós não merecemos tal vitória nem sabemos agradecê-la. E sim, a vitória sobre o medo e sobre a morte é nossa, porque Jesus a alcançou para nós. E a beleza da Páscoa é a vitória de Jesus e o coração pacificado dos seus discípulos. (Oh, se soubéssemos cantar os louvores da vitória e da pacificação não poderíamos jamais parar de cantar tão belos hinos!)
«Não se perturbe o vosso coração!».
O Evangelho deste domingo abre com estas palavras admiráveis de Jesus. É uma saudação que nos aplaca o coração que se agita diante do turbilhão das inseguranças e dos temores que, tantas vezes, nos induzem gestos e atitudes próprios de discípulos desesperançados e antecipadamente derrotados antes de ir a jogo.
«Não se perturbe o vosso coração!»,
é a mensagem de Jesus aos discípulos que até talvez se encontrem cobardemente confortáveis no fundo do poço, vivendo sem luz e sem vida, sem rumo e sem esperança de saída para as suas vidas. Vivem mortos, mas confortáveis!
«Não se perturbe o vosso coração!», diz-nos hoje Jesus a cada um de nós. Quando tudo parece falho de sentido Jesus, o Vencedor, tem antecipadamente palavras de conforto e de segurança. Ele sabe bem que um coração perturbado não enxerga nada senão escuros medos; não enxerga o amor dos outros, a compreensão dos demais , a disponibilidade para nos emprestarem a mão, o braço ou os pés por mais um troço do caminho; não enxerga que o mundo – este pequeno berlinde suspenso na leveza do azul do universo – continua trilhando o seu caminho com a calma de sempre.
(Afinal, talvez nos levemos demasiado a sério; e talvez tenhamos desaprendido a harmonia do saber perder tempo e deixar livremente os rios correrem para o mar.)
O coração perturbado cai facilmente na sedução do medo e fecha-se em si mesmo, mirrando-se e morrendo aos poucos. Irreversivelmente, sem se dar conta, e, por fim, sem possibilidade de inversão de marcha.
Mas, atenção, estas palavras – «Não se perturbe o vosso coração!» – disse-as Jesus pouco antes da sua Paixão. Também por mais essa circunstância nós devemos considerar que Jesus sabia o que nos estava a dizer. Sabia que a agitação do coração e a perturbação das emoções não ajudam a contemplar os milagres da vida e tampouco a olhar para dentro de nós mesmos. Por isso, aos discípulos agitados não lhes pede que fiquem impassíveis ou que se afastem dos problemas do dia a dia, e também não pode sugerir-lhes que mergulhem numa vida regalada que favoreça o intimismo e os desligue do mundo.
Aos discípulos perturbados e sem capacidade de decidir, Jesus, prestes a morrer, oferece uma última refeição e dá em testamento o melhor do seu património: oferece-Se-nos oferecendo pão e vinho como sinais do seu Corpo repartido, e a paz!
Tal como um pai oferece aos filhos o melhor de si para continuar vivendo nos herdeiros, assim Jesus nos oferece a paz para que saibamos viver ao seu estilo!
A Igreja pequenina e frágil guarda para sempre a confiança de Jesus em nós e caminha pela história entregando de geração em geração a paz!

Chama do Carmo I NS 229 I Maio 18 2014

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Boletim Informativo GAF



Foi hoje enviado por correio electrónico o Boletim Informativo Volume 4 – Número 1 (maio) do Gabinete de Atendimento à Família. Se ainda não está inscrito, poderá faze-lo em www.gaf.pt/boletim/. A newsletter GAF (Boletim Informativo Digital) é um tipo de publicação regular que aborda assuntos relacionados com a instituição e faz a sua distribuição por Correio Electrónico aos assinantes.

Aproveitamos para convidar a todos os amigos e simpatizantes da instituição a fazerem a divulgação deste novo serviço, junto da vossa rede de contactos… OBRIGADO!

terça-feira, 13 de maio de 2014

Porque hoje é dia 13 de Maio


Como está a nossa fé? Temo-la, como Maria, acesa nos momentos difíceis de escuridão? Tenho a alegria da fé?
FRANCISCO

Acto de entrega a Nossa Senhora de Fátima


Nossa Senhora de Fátima,
com renovada gratidão pela tua presença materna,
unimos a nossa voz à de todas as gerações
que Te proclamam bem‑aventurada.
Em Ti celebramos as grandes obras de Deus,
que nunca se cansa de inclinar‑se com misericórdia
sobre a humanidade, afligida pelo mal e ferida pelo pecado,
para a curar e salvar.
Acolhe com benevolência de Mãe
o acto de entrega que hoje fazemos com confiança,
diante desta tua imagem que nos é tão querida.
Estamos certos que cada um de nós é precioso aos teus olhos
e que nada do que habita os nossos corações Te é estranho.
Deixamo‑nos alcançar pelo teu dulcíssimo olhar
e recebemos a consoladora carícia do teu sorriso.
Guarda a nossa vida entre os teus braços:
abençoa e robustece todo o desejo de bem;
vivifica e alimenta a fé;
ampara e ilumina a esperança;
suscita e anima a caridade;
guia a todos nós no caminho da santidade.
Ensina‑nos o teu amor de predileção pelos pequenos e pobres,
pelos excluídos e sofredores, pelos pecadores e os de coração transviado:
reúne a todos sob a tua proteção
e a todos entrega ao teu amado Filho, Jesus nosso Senhor.
Ámen.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

As ovelhas e os pastores


Se existem boas ovelhas, há também bons pastores, porque das boas ovelhas se fazem os bons pastores. Mas todos os bons pastores coincidem e são uno. Quando eles apascentam, Cristo apascenta… É Ele mesmo quem apascenta quando eles apascentam.
(S. AGOSTINHO)

Frei Bartolomeu dos Mártires, modelo da renovação da Igreja

A chama nº 228, deste domingo do Bom Pastor de 2014, publicou a Nota Pastoral da Conferência Episcopal dedicada ao Bem-aventurado Frei Bartolomeu dos Mártires. Como já tínhamos publicado o texto na íntegra (http://chamadocarmo.blogspot.pt/2014/05/frei-bartolomeu-dos-martires-modelo-de.html) não o voltamos a publicar.

Oração para pedir a canonização do B. Aventurado frei Bartolomeu dos Mártires

Senhor,
protegei a vossa Igreja com a caridade apostólica do Bem-aventurado Bartolomeu dos Mártires, de modo que, como a solicitude pastoral o glorificou, assim também a sua intercessão nos faça sempre fervorosos no vosso amor.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Amén.

Relíquias do B. Aventurado Frei Bartolomeu dos Mártires

Um júbilo feito de uma salva de palmas, de flores e de chuva de pétalas, de leigos, sacerdotes com suas estolas e religiosos carmelitas com seus hábitos foi assim que ontem à tarde foram recebidas as relíquias do Bem-aventurado Frei Bartolomeu dos Mártires na nossa Igreja do Carmo.
Já o convento de São Domingos tinha história — 1563 é o ano do início da sua construção — quando em Viana se fundou o do Carmo, em 1618. Naquele tempo, entre os maiores amigos e promotores dos Carmelitas estiveram os frades Dominicanos. O tributo que estes dias prestamos ao dominicano Arcebispo Santo leva, portanto, muito da amizade que nos une e uniu. E leva também e sobretudo todo o nosso agradecimento ao Senhor pela vida santa e pelo raiozinho da sua glória que ainda hoje é São Bartolomeu dos Mártires.
Ao Senhor damos glória!

No dia do Bom pastor

Obrigado, Senhor, por nos concederes pastores segundo o teu coração

Chama do Carmo_228

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Exposição





Abriu esta tarde, nos claustros de S. Domingos, a Exposição Vida, Obra e Relíquias do Beato Bartolomeu dos Mártires. A visitar até ao fim do mês. Para reavivar a memória. Porque durante todo o Ano Jubilar toda a Diocese é a (velha) Ribeira, que tão bem conheceu e amou Frei Bartolomeu dos Mártires.

Na brochura da exposição, o Senhor D. Anacleto Oliveira escreveu:

Quanta vida se pode encontrar
por detrás das peças desta exposição!
A vida da personagem
por elas documentada:
vida que a sua obra exprime
e as suas relíquias evocam;
vida recebida de Deus
e comunicada aos homens.

De facto,
nenhum, de nós vive para si mesmo
e nenhum de nós morre para si mesmo.
Se vivemos, é par o Senhor que vivemos,
e se morre3mos, é para o Senhor que morremos.
Ou seja, quer vivamos quer morramos,
é ao Senhor que pertencemos
(Rm 14, 7-8).

Assim morreu e vive
Bartolomeu dos Mártires.
E assim vive e morrerá
quem contemplar a sua vida
por detrás desta exposição,
para pertencer ao Senhor.

Baú de Teresa

terça-feira, 6 de maio de 2014

Senhora peregrina


Envolvida de luz, de cânticos e pelo carinho dos seus fiéis chegou ontem (e parte hoje) a imagem peregrina da Padroeira da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima.
Convocados por Maria também nós saímos para os caminhos da vida, imitando-a assim no seu seguimento de Jesus.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Frei Bartolomeu dos Mártires, modelo de renovação da Igreja

1. Celebramos, já no próximo dia 3 de maio, os 500 anos do nascimento do Bem- aventurado Bartolomeu dos Mártires, um dos mais insignes promotores da renovação da Igreja nos tempos modernos. Mergulhado em Deus e conduzido pelo Espírito, ele soube, num período particularmente conturbado da vida da Igreja, intercetar caminhos de grande degradação de costumes e encetar vias de rejuvenescida evangelização.
Dom Frei Bartolomeu nasceu em Lisboa, em 1514, na freguesia de Nossa Senhora dos Mártires, e entrou na Ordem Dominicana em 1528. Foi professor nos Conventos de S. Domingos de Benfica, Batalha e Évora. Foi depois também Prior do Convento de Benfica e finalmente Arcebispo de Braga (1559 1582). Encontra-se sepultado em Viana do Castelo no Convento de S. Domingos que ele próprio mandou construir e onde se recolheu até à sua morte em 16 de julho de 1590.
Foi decisiva a sua contribuição, na última sessão do Concílio de Trento (1561 1563), para reformas na Igreja que, no seu dizer, «estava para cair». Entre as Petições que apresentou neste Concílio, destacam-se duas, pela sua atualidade: a obrigação dos Pastores permanecerem próximos dos fiéis que lhes estão confiados, um dever para o qual o Papa Francisco repetidamente tem chamado a atenção; a criação de seminários, como obrigatórios para a formação humana e espiritual, teológica e pastoral dos sacerdotes, tão urgente naquela época e necessária nos dias de hoje.
O próprio Papa Pio IV, que ele visitou pessoalmente em Roma durante uma interrupção da sessão conciliar, qualificou assim, em carta enviada ao Cardeal Dom Henrique, a sua participação no Concílio: «Tal satisfação nos deu, no tempo em que participou, com a sua bondade, religião e devoção, que o ficámos tendo em grande conta, com tamanho conceito da sua honra e virtude que não poderão alterá-lo queixumes de ninguém».
2. Regressado à sua Arquidiocese, prosseguiu com reformas já antes iniciadas e, pelo menos algumas delas, confirmadas e oficializadas por decisões conciliares:
– Fundou o Seminário, o primeiro em toda a cristandade, para a formação dos presbíteros, uma novidade que o Papa S. João Paulo II fez questão de mencionar na celebração da sua beatificação.
– Para formação e uso dos sacerdotes, designadamente no seu ministério de instruir os fiéis e os consolidar na fé e prática de vida, escreveu o «Catecismo ou Doutrina Cristã e Práticas Espirituais», dois anos antes de ter sido publicado o Catecismo do Concílio de Trento pelo Papa S. Pio V.
– Promoveu e impôs uma rigorosa administração dos bens eclesiásticos, para os repartir equitativamente, «sem entesourar nada», como ele escreveu, fomentando e pondo em prática uma especial solicitude para com os mais pobres e desprotegidos. Costumava dizer que «em sua casa só ele era o estranho e os pobres eram os verdadeiros e naturais senhores dela».
– A sua proximidade ao povo que lhe estava confiado levou-o a calcorrear repetidamente toda a Arquidiocese de Braga, em periódicas visitas pastorais, percorrendo, com os limitados meios de então, um território cuja extensão compreendia também a atual Diocese de Viana do Castelo e partes das atuais Dioceses de Vila Real e Bragança-Miranda.
– Primariamente para sua própria orientação espiritual e pastoral, escreveu o famoso «Estímulo dos Pastores» que viria a ser editado por S. Carlos Borromeu, seu discípulo e apreciado amigo, e que, séculos mais tarde, iria ser oferecido pelo Papa Paulo VI a cada um dos bispos no encerramento do II Concílio do Vaticano.
3. Em todas estas e outras iniciativas e atividades mostrou a audácia, o ardor apostólico, a generosidade, a simplicidade e a santidade que fizeram dele um pastor exemplar para todos os tempos, incluindo os nossos. Assim o reconheceu explicitamente o Papa S. João Paulo II, ao beatificá-lo, a 4 de novembro de 2001, isto é, poucos dias depois de terminar o Sínodo dos Bispos que se dedicou à reflexão sobre a vivência do ministério episcopal, e ao referir-se às visitas pastorais do Beato Bartolomeu na Exortação Apostólica Pós-sinodal Pastores Gregis (n.º 46).
A sua vida e obra transpiram aquele dinamismo missionário sem fronteiras, aquela profunda convicção cristã que nascem da «Alegria do Evangelho» e são muito acentuadas pelo Papa Francisco: «O entusiasmo na Evangelização funda-se nesta convicção. Temos à disposição um tesouro de vida e de amor que não pode enganar, a mensagem que não pode manipular nem desiludir. É uma resposta que desce ao mais fundo do ser humano e pode sustentá-lo e elevá-lo. É a verdade que não passa de moda, porque é capaz de penetrar onde nada mais pode chegar. A nossa tristeza infinita só se cura com um amor infinito» (Evangelii Gaudium, n.º 265).
4. Que os 500 anos que decorrem sobre o nascimento desta grande figura da Igreja e do nosso País, que foi o Bem-aventurado Bartolomeu dos Mártires, sejam uma oportunidade para mais o conhecermos e darmos a conhecer. Há pessoas que, pelos princípios e valores que pautaram as suas vidas, são permanentes modelos de referência de todos os tempos. O Beato Bartolomeu, tendo vivido em tempos de uma enorme crise epocal, dentro e fora da Igreja, pode e deve ser visto como testemunha para acreditarmos que a evangelização e as reformas na Igreja não só são necessárias como possíveis.
Conhecendo-o e imitando-o cada vez mais, invoquemos também a sua proteção para a Igreja e para o nosso País. E peçamos a Deus, de um modo especial, a graça da sua canonização, que o pode projetar, para além das nossas fronteiras nacionais, para aquela dimensão eclesial que, afinal, mais corresponde ao bem que Deus, por seu intermédio, fez e quer fazer pela sua Igreja.

Fátima, 1 de maio de 2014
Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa

Para mais tarde recordar!


Vamos caminhar pela Costa!
1 de Maio de 2014

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