domingo, 11 de março de 2012

Bem-aventurado Francisco Palau, um Carmelita Descalço afeito à intempérie

Francisco Palau é o terceiro de seis filhos do casal Jose Palau Miarnau e de Antónia Quer. Nasceu no dia 29 de Dezembro de 1811, em Aytona, Lérida, Espanha. Foi baptizado no mesmo dia e confirmado aos seis anos, a 11 de Abril de 1817. Passaram recentemente os 200 anos do seu nascimento. No próximo dia 17, no retiro quaresmal, escutaremos a ternura de duas das suas filhas falando do amor do pai pela mãe Igreja!
O lar dos Palau vivia da terra cujo cultivo se viu agravado com a guerra. Não vivem desafogados, mas honesta e decorosamente. A família é de sólida e exemplar tradição e vivência cristãs.
Francisco cedo se iniciou nas letras com a ilusão de ser alguém. Nos estudos tem aproveitamento tão superior ao dos irmãos e colegas que o professor insiste que lhe seja proporcionada a frequência dos estudos superiores. Recomendado pelo pároco, consegue uma bolsa de estudos que sufragará os encargos com o Seminário. Quatro anos depois abandona o Seminário para entrar na vida carmelitana. Recebeu o nome de Frei Francisco de Jesus Maria e José. No Noviciado conheceu a vida dos Carmelitas Descalços, contactou com eles e entusiasmou-se com o simbolismo do profeta Elias, com as gestas de Teresa, com os silêncios contemplativos de João da Cruz.
Consagra-se no dia 15 de Novembro de 1833. Dois anos depois as turbas levantaram-se sem regra nem lei, para invadir e queimar conventos.
Frei Francisco foge. De ora em diante viverá na esperança do regresso à vida claustral.
Foi ordenado presbítero a 2 de Abril de 1836. Porém, como ele próprio refere, «para viver no Carmo somente necessitava duma coisa: a vocação». E vocação de carmelita, sabe que tem! É-lhe conferido o título de missionário apostólico, que não lhe evitará o desterro em França.
Por meados do século a tempestade amaina. Empreendedor como é aceita do Bispo de Barcelona a direcção espiritual dos seminaristas e um mandato de renovação pastoral mais ampla. Em consequência desse mandato fundou com as forças vivas de Barcelona a Escola da Virtude que visa a instrução religiosa e cristã. Os sectores anticlericais mover-lhe-ão poderosa perseguição, que acabará encerrada e desterrado o seu fundador na Ilha de Ibiza.
Chega a Ibiza no dia 9 de Abril de 1854 completamente derrotado e abatido. Cabe-lhe agora recomeçar do nada. Durante os longos seis anos insulares residiu numa vivenda rústica, e dedicar-se-á sobretudo ao retiro e à oração, coordenadas da vida carmelitana. Aí amadurece novos projectos e mantém correspondência assídua com os antigos colaboradores da Escola da Virtude. A reunião de forças permite-lhe erguer uma capela que será o futuro Santuário de Nossa Senhora do Carmo em Es Cubells.
Rodeado de discípulos aprecia a solidão da ilha, onde se reencontrou com a geografia da sua cela conventual e onde amadurece espiritualmente.
Durante um ciclo de pregações em Ciudadela, Menorca é iluminado profundamente sobre a realidade consoladora do mistério da Igreja. Esta revelação tem carácter de charneira e define definitivamente a sua vocação inserida na Igreja, vivida para corresponder ao seu amor.
Faltam-lhe doze anos de vida, pelo que depois de preparado pelo cadinho, poderá lançar-se na missão de servir incondicionalmente a Igreja.
Nos anos seguintes, até 1866, dedicar-se-á sobretudo a pregação nas grandes cidades. Entretanto, vai adquirindo consciência de que a sua vida fora do claustro deverá orientar-se para uma obra fundacional.
Nos últimos seis anos de vida entrelaçará a vida de pregador com a de fundador e de assistência espiritual, sobretudo o de acolhimento compassivo de doentes incuráveis com sintomas e quadros clínicos muito complexos. Cria um hospício, onde, movido por profunda compaixão, acolhe os não poucos desperdícios humanos da sociedade de então, que ele trata e cura, com o recurso ao exorcismo.
Morre exausto aos sessenta e um anos de vida, no dia 21 de Março de 1872.
A figura do Bem-aventurado Francisco Palau é plurifacetada como convém ao Carmelita mais criativo do séc. XIX.
Juridicamente foi sacerdote secular, mas espiritualmente considerou-se sempre Carmelita Descalço, onde professou. A sua personalidade e a sua biografia entroncam nestas duas realidades. A sua vida apostólica revelou-se fértil. Foi pregador apostólico e catequista pioneiro dos métodos catequéticos; foi escritor no sentido apologista, embora tenha entrado pela narrativa e pela didáctica e pela mística; foi jornalista e exorcista por opção pessoal; foi fundador e legislador.
Como Carmelita Descalço exposto à intempérie, o seu coração ansiava pela vida comunitária claustral. Desse impulso nasceram os Irmãos Terceiros Carmelitas, as Carmelitas Missionárias e as Carmelitas Missionárias Teresianas, com o objectivo de completar no seu tempo a obra reformadora de Santa Teresa de Jesus e de recuperar a tradição contemplativa da Ordem.

Chama do Carmo I NS 140 | Março 11 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

Começou o Grupo de Casais

Começou o Grupo de Casais. Caminham sobre dois carris: aprofundamento da espiritualidade matrimonial e da espiritualidade carmelitana. Os homens, como se vê na foto, são muito participativos. Parabéns!

sexta-feira, 2 de março de 2012

A sua declaração de IRS pode ajduar o GAF

Venceu!

E foi mesmo vencedora do SuperTmatik. A Ana Carolina trouxe a taça. Depois mostramos as fotos!

Uma Quaresma menos

Não estou a chegar ao fim da vida, embora essa certeza só Deus a saiba. Entrei por isso na Quaresma convencido de que é preciso apreciá-la para agradecê-la, aceitá-la para mudar algo. Ainda posso mudar algo na minha vida, que, creio, não tem o seu fim histórico para já.
Mas que já está marcado, já.
Eu creio que o Pai tem um caminho para todos e para mim também. A meu ver o do Filho Pródigo é demasiado curto, e o do Filho Mais Velho é ainda mais curto e ambos estão longe do coração do Pai. Porém, nada garante que os regressos sejam efectivos e sinceros, e não apenas em busca duma côdea de pão. Afinal, podemos dispensar quase tudo, mas o pão não.
Queira Deus que eu não coma por comer, que para isso está a Quaresma para mo lembrar.
Não sou velho, e as contas estão certas: esta já é uma Quaresma a menos. E como padre é já a décima nona!
Cada ano o caminho é sempre o mesmo: quarenta dias a subir até ao Calvário. Creio que tive sorte com o cireneu, porque é Ele quem me leva a cruz. E por mim continuará mais um tempo (sem mim)! Que de mim dou pouco.
Cada ano o caminho deveria ser diferente: Uma nova mudança, um acerto no rumo, um ajuste na velocidade, uma correcção de sentido, um novo programa de conversão. Enfim, parece mais uma repetição, mas não é de todo. O monte continua lá, a cruz continua lá, Cristo continua lá e por lá terei de passar a caminho da ressurreição. Cristo é o mesmo e o caminho também. Eu sou o mesmo, mas este ano carrego mais pó dos caminhos e dos pecados.
A minha sorte é que Cristo entra primeiro que eu em Quaresma, e ali está Ele para me dar a mão, me emprestar o ombro, me oferecer o coração rasgado onde me poderei acoitar. Felizmente há Quaresma. Basta para tanto que a roda do tempo rode com acerto e boa cara para nós. Mas, que fizemos nós de tantas Quaresmas? Para onde vamos nós, os papa-Quaresmas? Por que não marcam os jejuns as nossas carnes? Por que as conversões não nos marcam o coração? Poderei chegar igual à próxima Quaresma?
Esta é uma Quaresma a menos, uma oportunidade a menos. Alguns amedrontam-se e até se aterrorizam. Por que confio que ainda terei mais uns anitos, por aqui vou andando ignorante do fim, do dia e da hora. Porém, já olho para trás e vejo que faltam amigos a meu lado. Já olho para trás e recordo que alguns terminaram inesperadamente. (A meio de uma Quaresma, a um amparei-lhe a cabeça no meu peito, no banco de trás de um carro voando nas curvas em direcção ao hospital. Não valeu de nada... Era mesmo a sua hora! Foi mesmo a sua última Quaresma!) Olho para trás e já não estão alguns que caminharam comigo a Quaresma passada. Agora que o seu caminho terminou, quero crer na misericórdia do Pai e que estão a celebrar eternamente a Páscoa.
Qual será a minha última Quaresma? Não sei. Só sei que no fim desta ficarei mais próximo da casa do Pai. Mais próximo dos átrios da sua casa. Queira Deus que chegue lá com a veste limpa, eu que em vida usei um hábito!
Neste Domingo da Transfiguração vou para retiro. Para um monte. Verei se me aproximo do Senhor e Ele me lava. Que se o Senhor não me lava nem me leva, isto não vai de todo bem e até mal!
Vou ao encontro do Senhor convencido de que é este o tempo da graça e que a graça não pode ser desaproveitada, que amanhã haverá uma oportunidade menos para me encontrar com Ele e a Ele me abraçar.
De que valem todas as Quaresmas passadas e o fruto de conversão que deram (se deram?) se nesta eu não me converter e melhorar?
Vou converter-me, porque não sei se nas futuras darei algum fruto. A altura certa é esta. O lugar certo é aqui, com estes que me rodeiam, com os pés que comigo cruzam as encruzilhadas. O Caminho vai connosco, não há que enganar: O seu términus é mesmo a Casa do Pai.
Chegou a hora. É esta a hora certa para abrir o coração e lançar a semente. Chegou a hora da caridade e o momento de negociar os talentos, de arriscar os dons e arrancar frutos doces do meu coração de pedra! Procurarei descortinar a vontade de Deus, que me diz pela boca do Profeta Isaías (58:6-7):



«O jejum que eu quero é este: Abrir as prisões injustas, fazer saltar os ferrolhos dos cepos, libertar os oprimidos, romper todas as correntes, partir o pão com o faminto, hospedar os pobres sem tecto, vestir o nu e não me fechar na minha própria carne.»

Não é tão pouco assim, mas também não poderei adiar o que é para agora. Como posso fechar o rosto a tanta vítima da crise? A tanto necessitado? Poderei deixar para o ano aquilo que já me foi dado neste? Vou para Quaresma.
E entretanto se eu não morrer, poderá morrer de fome o pobre que agora me pede ajuda!
Chama do Carmo | NS 139 | Março 4 2012

Prestemos atenção uns aos outros

A Chama do Carmo nº 138 publicou o texto da mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2012. Pode ler em: http://chamadocarmo.blogspot.com/2012/02/mensagem-do-papa-bento-xvi-para.html

Lotação esgotada!

Continuamos a escutar o Evangelho de Marcos. Continuamos ainda dentro da jornada de Jesus em Cafarnaum. Continuamos a verificar o poder da sua palavra e a força da convocatória da sua fama. Sim, a fama de Jesus crescia rapidamente. O passa-palavra tinha uma eficácia poderosa. Os seus milagres atraíam multidões. As multidões — há quem diga que milhares de pessoas! — reuniam-se em torno de Jesus. A narração diz que, desta vez, se reuniram em frente da casa onde Jesus estava. Aglomerava-se tanta gente ao seu redor que parecia impossível alguém aproximar-se de Jesus.
Na narração do Evangelho deste domingo somos colocados diante duma situação de lotação esgotada. Foi um daqueles momentos tão intensos na vida de Jesus, que não cabia ninguém mais, nem fora nem dentro da casa onde Ele se encontrava.
Desde há dias atrás que o encontro com Jesus e a força da Sua palavra se tinham revelado tão novos e tão impactantes, que as pessoas não podiam calar a novidade do que viam e ouviam.
Eis, pois, que amplamente motivados pelas notícias que correm de boca em boca, se concentraram os famintos da novidade da palavra salvadora e sanadora de Jesus.
São de facto muitos. É uma assembleia enorme. Uma assembleia apinhada, apertada como uma pinha. Uma assembleia que corre o risco de abafar Jesus, ou o que é mais: de impedir que os mais afastados cheguem até Jesus.
Quem poderia imaginar algo assim? Quem, no seu juízo, poderia sonhar aproximar-se de Jesus? Mais ainda: como poderia um paralítico, um impedido de andar, entrar na comunidade de Jesus e aproximar-se Dele?
Encontramos hoje Jesus curando um paralítico. Olhando bem o contexto pareceria impossível que alguém vindo de fora pudesse romper a multidão e se aproximasse de Jesus. Parecia quase impossível! Parecia difícil sim, mas não impossível! Estando tudo tão atulhado de gente, como ousar batalhar para aproximar-se de Jesus? Atrever-me-ia a dizer que a fé cria soluções, inventa possibilidades, franqueia portas, abre janelas. Foi o que fizeram aqueles quatro amigos do paralítico desta narrativa do Evangelho de Marcos.
O que não vai a bem vai a mal, pensaram! Ele tem de lá chegar. Se não entra pelas vias normais, a porta, levantará pelo telhado!
Que fé louvável a daqueles cinco homens! Que louvável persistência a desses desconhecidos! Poucas vezes teremos tido oportunidade de presenciar tão grande demonstração de fé.
Enfim, tantas vezes diante dos problemas nos sentimos nós exactamente assim: perdidos, sem rumo, abandonados no fundo dum poço de paredes altas. E Jesus parecendo-nos tão alheio e tão distante e as barreiras impossivelmente intransponíveis. Quantas vezes em nossas vidas negras sobra pessimismo, falta coragem, ânimo, fé, força, garra. Como desistimos tão facilmente diante das muralhas humanas que nos separam do Senhor!
Essa superaglomeração de pessoas que se interpõem entre nós e o Senhor tem realmente o condão de distanciar-nos Dele. É verdade: amigos existem que nos arrastam para correntezas nada límpidas e nada engrandecedoras da nossa dignidade!
E o mesmo com as doenças: formam-se barreiras pirenaicas entre o doente, o médico e a cura. Parece conquista impossível o acesso aos remédios, aos internamentos, aos exames complementares de diagnóstico! E são tamanhas as toneladas de entraves burocráticos! Assim na narrativa do Evangelho, assim também às portas do nosso sistema de saúde permanecem milhares de pessoas aguardando uma mão amiga, um sorriso compreensivo, uma força de vonatde decisiva. E tantas das vezes a cura não depende de milagre, quando basta o atendimento a que se tem direito e o acesso ao medicamento eficaz. O milagre não depende só de intervenção divina, depende também de disponibilidade humana. Depende de nós e tem nomes simples: amor, respeito, partilha, dignidade e, até mesmo, direito. Se os direitos fossem respeitados muita coisa poderia mudar. E como por milagre poderiam diluir-se filas enormes de doentes despejados nos postos de saúde e nos hospitais. E as indústrias farmacêuticas poderiam pensar mais na venda de remédios a preços acessíveis e menos nos lucros.
Antes de curar o paralítico, Jesus perdoou-lhe os pecados. Isto é, antes de curar o físico consertou-lhe o espírito. É que Deus conhece bem os milhões de filhos doentes que caminham, ouvem e enxergam mal. Caminham, porém como solitários e sem rumo, e as suas estradas são atalhos que não levam a Jesus. Eles não ouvem a sua Palavra, nem enxergam os seus irmãos.
É preciso, urgentemente, apresentá-los ao Deus misericordioso, para cuja misericórdia jamais existe lotação esgotada!
Chama do Carmo I NS 137 | Fevereiro 19 2012

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Primeira Quarta feira penitencial





No dia 22, começou em toda a Igreja a Quaresma. Era Quarta-feira de Cinzas. Este ano, nas Quartas, à ceia, fazemos penitência. Partilhamos uma sopa e o recolhido é distribuído pelos pobres.
Calmamente, silenciosamente, nesta primeira experiência éramos vinte e cinco, contando as crianças. Sim, meu Deus, contando jovens e crianças!

Bênção do peregrino




Por último, e às 7:30h de Domingo, o grupo reuniu-se aos pés de Nossa Senhora do Carmo e pediram e receberam a bênção do Peregrino. Era o segundo dia de viagem, a mochila não pesava menos, mas um peregrino confidenciou que «depois da bênção o caminho é mais fácil». Assim seja.

Actuação inesperada



No fim da ceia preparada pela Ana, a Joana, a Verónica e a Dª Idalina houve ainda actuação de variedades. A Ana e a Matilde encarregaram-se disso. E bem, muito bem.

Grupo Pegadas




O Grupo Pegadas é um grupo alargado de peregrinos. No passado dia 18 chegaram ao Albergue São João da Cruz dos Caminhos vindos de Esposende. Fizeram vinte e tal quilómetros mas chegaram em forma. Alegres e em  forma.  Nunca tínhamos recebido um grupo de peregrinos tão grande, apesar do Albergue estar aberto há um ano. Aqui foram vividos bons momentos, também de espiritualdade do caminho. E no fim ainda condecoraram o Prior. Muito obrigado

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Prestar atenção ao irmão

O facto de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correcção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15).
(Bento XVI)

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI PARA A QUARESMA DE 2012

Irmãos e irmãs!
A Quaresma oferece-nos a oportunidade de reflectir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.
Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre actual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.
1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão.
O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objecto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo actual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo»
(Carta Enc. PP, 66).
A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.
O facto de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correcção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correcção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há-de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correcção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais rectamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.
2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade.
O facto de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a actual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correcção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.
Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a acção do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).
3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade.
Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efectivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf.Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.
Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre actual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (JPII, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).
Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.
Vaticano, 3 de Novembro de 2011
BENEDICTUS PP. XVI

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O pecado

Um velho rabino contava:
Cada um de nós está unido a Deus por um fio. E quando cometemos uma falta, o fio se quebra. Mas quando nos arrependemos da nossa falta, Deus faz um nó no fio. De repente, o fio fica mais curto que antes. E o pecador fica um pouco mais perto de Deus. Assim, entre falta e arrependimento, entre nó e nó, nós nos aproximamos de Deus. Finalmente, cada um dos nossos pecados é uma ocasião de encurtar a corda de nós, e de chegar mais rapidamente perto do coração de Deus.
Santa Quaresma.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Super matemática!


A Carolina é acólita da Missa das Dez. E é campeã dum jogo muito difícil para oe adultos como eu. Chama-se o jogo SuperTmatik. Basicamente o jogo consiste em fazer contas, que vão sendo propostas aleatoriamente. A rapidez da solução certa é o que conta. Garanto que os miúdos, digo a miúda, são imbatíveis. É do terceiro ano — só tem oito anos! — mas a velocidade das soluções debita-as como um einstein!
Eu fiquei trucidado.
A próxima actuação é na Escola de Monserrate. E já sabemos quem traz a taça para casa!

A vida não é um carnaval!

Tem razão!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Prestemos atenção uns aos outros

Ontem, 11 de Fevereiro, foi o Dia do Doente.
«Prestemos atenção uns aos outros!» É assim que abre a Mensagem do Papa para a Quaresma que se aproxima. Esta atenção começa com o nosso mais próximo, especialmente aquela ou aquele que nos habituamos a ver sem quase ver. Mas, também, colectivamente, aqueles que são vítimas da nossa omissão, de quem nem sequer nos incomodarmos em olhá-los. Diz o Papa: "A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios".
É bem verdade.
Momentos há em que nos transcendemos. Que nos transformamos e nos vemos a fazer coisas de que sempre disseramos: «Jamé!». Acontecem naquelas situações que de tão desprovidas de humanidade – e tão saturadas de humilhação – nos surpreendem, por alguém as assumir dum fôlego ou dum ímpeto irreprimível.
Assim de repente lembro-me de Francisco de Assis e de Maximiliano Maria Kolbe. Mas há mais exemplos, claro. Estes chegam para compreender a ideia. Vejamos: Francisco Bernardone era o líder da juventude da sua cidade. Alegre, amante da música e das festas. Com muito dinheiro para gastar, rapidamente se tornou um ídolo entre seus compinchas. Adorava banquetes, noitadas de diversão e de cantar serenatas às belas damas da sua cidade. Mas converteu-se e os antigos companheiros chacotearam-no e o pai Pietro enfureceu-se. Em 1206, passeando a cavalo pelas campinas de Assis viu um leproso, que sempre lhe parecera horripilante e repugnante à vista e ao olfato, e cuja presença sempre lhe havia causado invencível nojo. Porém, então, como que movido por uma força superior, apeou-se do cavalo, e, colocando o seu dinheiro naquelas mãos podres e sangrentas, deu ao leproso um beijo de amizade.
Existem concerteza muitos beijos, mas o de Bernardone é único e de todo inesperado.
Séculos mais tarde um filho do pai Francisco tem um gesto parecido. Frei Maximiliano Maria Kolbe estava prisioneiro no inferno de Aushwitz e num acto de inaudita caridade (ou loucura?) ofereceu-se para morrer em vez do sargento Franciszek Gajowniczek, casado e com filhos. E assim foi. E Franciszek sobreviveu ao inferno!
Há gestos assim, cheios de santa loucura! Incompreensíveis, mas que nos devolvem a confiança no ser humano. O beijo nas carnes podres e aquela imolação são tão radicais que mesmo sabendo-as sempre nos surpreendem!
Agora imagine: Imagine que a pessoa que se senta ao seu lado no café, ou aquela que o saúda mui fraternalmente na Missa têm Sida! De futuro que fará você? Vai, gentil, corresponder-lhes? Vai saudá-los e apertar-lhes as mãos? Ou dá por encerrada a fraternidade e muda de café e de igreja? Seremos capazes da ternura de Francisco e da radicalidade de Maximiliano? Por que mirram hoje os seus gestos? Por que são tão áridos os nossos tempos tão alheios à bondade desinteressada?
Poderia continuar, mas o mais interessante será partir para a acção. O mais interessante é a prática concreta do dia a dia.
Ocorre-me esta reflexão porque passou ontem mais um Dia Mundial do Doente. E nada mais triste ser doente nestes duros tempos da tróika. Obrigado a cortar nas gorduras o Estado já quase não faz operações. Mas o Estado não tem dores, não sofre. Logo não sabe reconhecer as dores das pessoas. O Estado sabe de números e de estatísticas, não sabe de dores e de humanidade. Nos relatórios aparecem os números dos desempenhos e o alcance das práticas., mas a burocracia não sente nem sabe ler sufoco, desespero e dor.
E já não é só o Estado, somos também nós. É sabido que na silly season e nas épocas altas os velhos e doentes ficam abandonados sem que alguém os visite. O que importa é tirar uns dias de paz e sossego, ir para longe, ficar fora. Entretanto, os velhos morrem na solidão donde só são resgatados quando cheira a carne podre por todo o prédio; ao mesmo tempo os hospitais apressam altas de doentes que ninguém vai resgatar porque são tropeços em casa e impecilhos de férias há muito pagas.
É por isso que tem razão o Papa quando nos alerta para a crescente insensibilidade e cegueira que nos impedem de atendermos os outros e de beijarmos o sofrimento alheio. É por isso que hoje já quase não percebemos os gestos de Frei Francisco e Frei Maximiliano!
Aqueles que já não funcionam, isto é, os velhos, os nossos velhos decrépitos e os doentes, os que não contribuem para o orçamento familiar e apenas o delapidam, ficam esquecidos a um canto da garagem da memória. E para piorar as coisas, nós, cristãos, já quase não veneramos aquelas palavras de Jesus que antes tanto moviam à piedade e ao respeito pelos frágeis (que todos um dia havemos de ser): «Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos, é a mim que o fazeis!»

Chama do Carmo I NS 136 I Fevereiro 12 2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

As faces da esperança

A mim, tinham-me pedido que apresentasse a perspectiva da doutrina social da Igreja e da espiritualidade sobre a crise. Não sei se dei algum contributo positivo para o debate mas constatei como a voz da Igreja é ouvida e acreditada nestas matérias. Partilho convosco algumas ideias que me têm povoado a mente nos últimos tempos e que pus em comum nesse forum.
Comecei por apresentar grandes questões que nos permitam alargar o horizonte da reflexão e ir aos fundamentos do fenómeno: O que é que está em crise? Porque é que chegamos à crise? Quais os domínios onde ela mais se nota e onde é que estão as suas raízes? A crise é algo que apenas suportamos ou que acolhemos com paz e naturalidade? E no meio da crise, ou crises, ainda há lugar para a esperança? Que contributo têm os homens e mulheres de fé, membros da Igreja, a dar para esta reflexão? A Igreja possui realmente um corpo doutrinal e uma experiência de vida acumulada que lhe permite ter uma palavra no assunto.
Em primeiro lugar, temos a convicção que a crise acontece porque perdemos valores, referências, sentido da vida, esquecemos Deus como referência suprema que nos permite configurar e hierarquizar valores, critérios, princípios de vida, que nos permite colocar cada coisa no lugar que lhe corresponde. Realmente quando falta Deus, fundamento último da ética e da moral, o homem e as sociedades ficam a um passo da lei da selva, do «salve-se quem puder», da corrupção, dos atropelos à dignidade humana, dos desequilíbrios ecológicos… e de tudo isto temos exemplos abundantes.
Agora, gritamos, alarmamos e apregoamos a crise por todos os lados. Procuramos onde descarregar a insatisfação e revolta perante o ponto a que as coisas chegaram. Penso que esta crise é inevitável porque os padrões de vida que vivemos ou aspiramos atingir são insustentáveis. Pergunto-me senão precisamos mesmo duma certa dose de crise e de critica (que tem a sua raiz etimológica na palavra “crise”) para regressarmos aos fundamentos do real que são a verdade, a justiça, o respeito pela ordem natural das pessoas e das coisas.
O povo crente sempre fez a experiência da crise. Jesus colocou-se e colocou-nos numa situação critica, abalando os falsos fundamentos religiosos e políticos do seu tempo para construir uma nova ordem, uma nova relação das pessoas entre si, com as demais criaturas e com o Criador. Enquanto se está mergulhado na crise seja ela mais de cariz pessoal, espiritual, social ou económica… experimenta-se como desagradável, acarreta grandes lutas e sofrimentos.
O importante é que na crise haja um lugar para a esperança. O que nos parece derrotista e pessimista é a crise sem esperança. A crise purifica, recentra-nos no essencial da beleza e da bondade que dão sabor à vida.
A Igreja, com as suas ramificações nas comunidades cristãs, nas instituições de caridade cristã, na exortação constante à prática do acolhimento e da solidariedade ente vizinhos e famílias, conhece os rostos da crise e esforça-se por a minimizar. Muitas vezes, a Igreja, na sua pobreza de meios e recursos, não consegue corresponder a tanta demanda. Nesses momentos, só pode oferecer a única riqueza que possui: Cristo no meio de nós com as suas fortes razões para acreditar e esperar.
Nas nossas comunidades, podemos escutar, acolher e rezar pelas situações que todos os dias nos batem à porta. Se pudermos dizer olhos nos olhos: «Tem confiança, não desanimes, vamos rezar por ti, hoje vou ter-te presente na eucaristia…» quantas janelas de esperança abrimos com estas palavras! Com a esperança alicerçada em Cristo e nos valores do seu Evangelho, nós podemos ajudar a humanidade a sair das encruzilhadas e enredos em que se envolveu. Podemos pôr-nos a caminhar com os homens e mulheres de boa vontade na procura de novos modelos de vida social, de novos paradigmas económicos e de desenvolvimento que nos permita esperar e acreditar que as travessias dos desertos nos conduzirão à «terra prometida».
P. Joaquim Teixeira, OCD
Provincial


Chama do Carmo I NS 135 I Fevereiro 5 2012

domingo, 29 de janeiro de 2012

Oração pelos Consagrados


Senhor, confiaste-me uma missão.
Mas qualquer missão provém do teu amor infinito.
Pois que Tu confias em mim, convidas-me a partilhar a tua missão.
Por outro lado, cada missão depende da resposta que darei.
Devo tomar consciência da grandeza de quanto me foi confiado,
nada menos do que a própria missão de Jesus.
«Assim como o Pai me enviou,
também Eu vos envio a vós» (Jo 20,21).
Senhor, para mim, o teu nome é «Salvador».
Toda a tua vida foi consagrada a esta missão: a salvação…
Seguindo-te, eu sou um «salvador» para os nossos dias.
Concede-me que a grandeza da minha missão me penetre
Para a realizar, deverei rezar,
preparar-me, agir, colaborar, observar
O teu exemplo, Jesus, está na minha frente
Tu cumpriste a tua missão no calvário
Isto significa que sacrificaste a tua vida por ela.
Sim, esta missão merece que lhe consagre as minhas forças,
toda a minha vida,
porque ela é amor de Deus, amor dos meus irmãos.
«Devo amar com todo o meu espírito,
com todas as minhas forças,
com toda a minha alma,
com todo o meu ser».
Porque tudo o que não faço com paixão
(Cardela Van Thuan)

Oração dos Consagrados

Senhor Jesus, que nos chamaste
para Te seguirmos de mais perto,
vivendo para o Pai e os irmãos,
dá-nos a graça de trabalharmos no Teu Reino
com a audácia dos Apóstolos,
o fogo dos Profetas,
a têmpera dos Mártires,
o zelo ardente dos Fundadores
e a alegria dos verdadeiros amigos de Deus.

Que o Teu Espírito nos faça
dóceis à Palavra inspiradora,
atentos  aos sinais dos tempos,
servidores da vida
que o Pai deseja para toda a criatura.                
Pela intercessão puríssima de Maria,
Estrela da Evangelização.

Amen.