Somos Carmelitas Descalços, filhos de Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, Ordem dos Irmãos da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, Senhora do Sim, nossa Mãe e nossa Irmã, em Viana do Castelo, Alto Minho, Portugal, a viver «em obséquio de Nosso Senhor Jesus Cristo e a servi-l’O de coração puro e consciência recta».
sábado, 8 de março de 2014
Dia Internacional da Mulher
Oh! Senhor da minha alma, quando andáveis no mundo Vós não desprezastes as mulheres. Antes as favorecíeis sempre com muita piedade e sempre nelas encontrastes muito amor e mais fé que nos homens.
SANTA TERESA DE JESUS
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sexta-feira, 7 de março de 2014
Noche Oscura (São João da Cruz)
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quinta-feira, 6 de março de 2014
Quarta-feira de Cinzas
Tony Reali é jornalista de desporto da televisão ESPN. Antes de ir trabalhar participou da Missa de Quarta-feira de Cinzas. Ao sair da Santa Missa foi para o programa com a cinzas na testa. E começou-o, dizendo: «Eu sou um narrador de jogos, um apresentador de TV, e também sou católico!».
quarta-feira, 5 de março de 2014
Mensagem para a vivência da Quaresma e da Páscoa na Diocese de Viana do Castelo
1. “Na doação a vida fortalece-se; e enfraquece-se no comodismo e no isolamento.” Estas palavras, do Episcopado Latino-americano e do Caribe, são citadas pelo Papa Francisco na sua Exortação Apostólica “A alegria do Evangelho”. Tomemo-las como orientação e incentivo para a vivência da Quaresma e da Páscoa, que na Eucaristia de Quarta Feira de Cinzas nos são apresentadas como tempo favorável e dia da salvação.
Nelas se resumem, antes de mais, os acontecimentos salvíficos que celebramos no Tríduo Pascal. Foi na incondicional e total doação da vida, consumada na cruz, que o Senhor Jesus Cristo obteve a máxima fortaleza: venceu a morte para sempre e tornou-se fonte perene de salvação e vida para todos os que n’Ele crêem e nos quais assim passa a viver. Só com Ele presente em nós e a agir por meio de nós, poderemos convictamente exclamar no Domingo da Ressurreição: Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria.
Precisamos para isso da Quaresma, o tempo favorável, em que nos são propostos os meios para sairmos do comodismo e isolamento em que a vida se enfraquece: pelo jejum e a abstinência renunciamos a nós próprios, para nos darmos a Deus e aos outros; na oração, em que a Ele nos confiamos, somos inundados pelo seu amor ilimitado; e com a esmola dilatamos a nossa vida à vida daqueles a quem a damos. Vale a pena, pois, aceitar o convite do Senhor, na altura em que nos são impostas as cinzas: Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.
2. O contributo penitencial, fruto da renúncia quaresmal, é uma das expressões da nossa doação a Deus e aos outros. Depois de consultar o Conselho Presbiteral, decidi que, este ano, ele seja canalizado, em partes iguais, para dois destinatários:
- As pessoas mais carenciadas da nossa Diocese, de novo através das Conferências Vicentinas, cujos membros vivem a sua doação a Deus e aos outros numa dedicação para todos exemplar.
- Os cristãos da Síria que, para além de viverem numa nação martirizada por conflitos arrasadores, são ainda vítimas de segregações e perseguições por causa da sua e nossa fé em Jesus Cristo.
Demo-nos a uns e a outros com a nossa generosa solidariedade, ainda que isso nos custe e nos doa. Escreve o Papa Francisco na sua mensagem para esta Quaresma: “Desconfio da esmola que não custa nem dói”. Afinal, foi também na dor – e que dor! – que Jesus Cristo mais se deu por nós e nos mostra como, na doação, cresce e se fortalece a nossa vida.
3. Como orientação e incentivo para esta doação, durante a Quaresma e a Páscoa, recomendo ainda a leitura meditada e rezada, individualmente e em grupo, da já referida Exortação Apostólica do Papa Francisco, “A alegria do Evangelho”, e da Nota Pastoral que escrevi para o presente ano, “Há mais felicidade em dar(-se)”.
Viana do Castelo, 02 de Março de 2014 (no XXXVI Encontro Diocesano da Pastoral Litúrgica)
† Anacleto Oliveira (Bispo de Viana do Castelo)
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Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2014
«Fez-Se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza.» (cf. 2 Cor 8, 9)
Queridos irmãos e irmãs!
Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?
A graça de Cristo
Tais palavras dizem-nos, antes de mais nada, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, fez-Se pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fil 2, 7; Hb 4, 15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez connosco. Na realidade, Jesus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, excepto no pecado» (CONC. ECUM. VAT. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).
A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Batista para O batizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para Se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Hb 1, 2).Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu «jugo suave» (cf. Mt 11, 30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf. Rm 8, 29).
Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.
O nosso testemunho
Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d’Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.
À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.
Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspetivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se veem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos autossuficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.
O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.
Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.
Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo» (2 Cor 6, 10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim.
Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde,
Franciscus
Vaticano, 26 de dezembro de 201
Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir
terça-feira, 4 de março de 2014
segunda-feira, 3 de março de 2014
domingo, 2 de março de 2014
Caminho Português da Costa
Atravessando o
rio Neiva pela ponte do Sebastião o peregrino é chegado a «Castelo do Neiva»,
freguesia do concelho de Viana do Castelo. Atravessando o lugar de Moldes chega
à Avenida Central de onde se pode subir até à Igreja de Santiago, a mais antiga
consagrada ao apóstolo, fora do território espanhol. Daqui dirige-se até
Santiago de Perlinha, na direcção da vizinha freguesia de «S. Romão do Neiva».
Chegado ao lugar de Aldeia de Cima, tome-se a antiga estrada Real, aqui chamada
Rua Caminho de Santiago seguindo na direcção do Mosteiro de «S. Romão». Junto
ao Monte da Senhora do Crasto o itinerário desvia-se da Estrada Real, agora
caminho florestal, para passar junto Cenóbio. Dirigindo-se, agora, para a
freguesia de «Chafé», onde se retoma Estrada Real, por entre Alminhas e uma via
Sacra, o Caminho atravessa vários lugares da freguesia até entrar «Vila Nova de
Anha», onde passa pela Igreja de Santiago. Atravesse-se agora o Monte de Faro,
na direcção a Darque e a Viana do Castelo, que espera o peregrino do outro lado
da ponte Eiffel. Em Viana do Castelo pode retemperar as forças no albergue de
S. João da Cruz dos Caminhos e percorrer os antigos trilhos que davam acesso ao
casco medieval pelo local onde existiu a porta das Atafonas e daí subir à Sé.
Pode visitar o Hospital Velho, medievo albergue de peregrinos, a Praça da
República e o casco medieval. Partindo para Norte, na direcção de Santiago de
Compostela, percorrerá as ruas de Viana do Castelo, passando pelo recolhimento
de Santiago e pela Capela de S. Roque, no Campo da Agonia. Saindo para «Areosa»
pela rua dos Sobreiros, percorre o caminho entre quintas e ambientes
pitorescos. Atravessa-se o Ribeiro de Pego, percorrendo o caminho junto à
capela e Quinta da Boa viagem, continuando na direcção a «Carreço», passando
junto antigos penedos gravados, por casas agrícolas, igrejas, capelas, alminhas
e cruzeiros, abrigado pela frescura das árvores que abundam neste troço do
caminho. Antes de chegar a «Afife» trilhará um caminho florestal e, já na
freguesia, por cangostas, carreiros e caminhos encaminhar-se-á para o Convento
de Cabanas e cruzará o ribeiro, que com o mesmo nome, por ali desce a Serra de
Santa Luzia a caminho do mar. De Cabanas sobe a Agrichouso, passa pelo lugar da
Pedreira até encontrar o trilho, empedrado, que o conduz até ao cruzeiro do
Vale para dali alcançar o lugar da Matança, junto à velha Cividade de Afife,
onde termina o percurso por terras de Viana do Castelo.
Aos filhos
Fitai as aves na amplidão celeste,
A garça branca que nos ares vai…
Nem uma pena da plumagem cai
Sem permissão de Deus, que assim as veste…
Vede os lírios do campo; quem reveste
Seu ouro de lavor? Considerai
Que, lá no céu, tendes um Deus que é Pai
E faz chover amor no solo agreste…
Por que trazeis vossas feições tão graves?
Não valeis, porventura, mais que as aves?
Mais que os lírios do campo não valeis?
Desventura é viver sentindo o travo,
O gosto amargo de um viver escravo,
Sem saber que sois filhos… que sois reis…
Orai sem cessar: “Senhor, a tua mão direita me sustenta!” (Sl. 63,9)
A. S. Santini
Deus-Mãe
Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria.
ISAÍAS 49:15
ISAÍAS 49:15
Não vos inquieteis!
sábado, 1 de março de 2014
Boas razões para preocupar-nos
Angústia. Esta semana duas pirralhas que na soma dos anos estavam longe de chegar à maioridade, gritaram-me, ao saberem que era padre: «Não gosto de Deus! Jesus foi inventado pelos padres! Ele esqueceu-se de nós e não dá o que lhe pedimos!». Concordei, ao não saber que dizer, que calar, se rir se chorar. O certo é que, desenvoltas, argumentavam a sem-vergonhice de Deus que nos (as) desampara. É com este episódio de desamparo — não duvido que elas o sentem assim — que me disponho a escrever a Chama. Ainda não sei responder às miúdas, mesmo sendo certo que sei o que Jesus diz com firmeza no evangelho deste domingo (Mt 6:24-34): «Não vos preocupeis!».
Existem então boas razões para andarmos todos preocupados? Sim, existem. E muitas. Dependendo do ângulo em que nos situarmos no miradoiro da vida elas aumentam ou diminuem. Sempre teremos preocupações: a comida não cai do céu, a bebida não vem com a chuva; o dinheiro é sempre pouco e mesmo não trazendo felicidade, ajuda; logo precisamos dele. Tudo isso é certo. É certo e condiz com o argumento das miúdas e parece não condizer com o que Jesus nos diz no evangelho. Além disso, não vemos nós um punhado de ricos ficar cada vez mais rico, e um mar de pobres ficar cada vez mais pobre, sem o suficiente para construir uma vida digna, formar uma família, estabelecer um lar com comida, habitação, roupa, saúde, acesso ao ensino, ao conforto e ao lazer?
E logo, hoje, surpreendentemente, por cinco vezes, Jesus repete-nos: «Não vos preocupeis. Não vos inquieteis com o dia de amanhã!». Não?!
Ser-nos-á possível seguir o ensinamento de Jesus?
Vejamos: o dia de ontem já passou; o de amanhã não sabemos se chegará, pois a ninguém foi dado conhecer o seu porvir. Do dia de ontem, ficaram dores e rasgões e muitos motivos de acção de graças pelos benefícios e ajudas de Deus. Igual aos que partilham connosco pedaços do caminho. Com certeza foi-nos possível aumentar, nem que seja uma migalha, o nosso tesouro no Céu.
Do dia de ontem restam ainda motivos de contrição e penitência pelos nossos pecados, erros e omissões.
Do ontem podemos ainda dizer o que hoje reza a liturgia da Missa: «O Senhor tornou-se o meu apoio, libertou-me da angústia e salvou-me porque me ama.»
O amanhã ainda não é, e, se chegar, poderá ser o dia mais belo que jamais pudemos sonhar, porque foi preparado pelo bom Deus.
Temos, assim, certamente, razões para vivermos angustiados, mas só se for em registo de falta de fé e confiança no Pai. Porém, seja o que seja o dia de amanhã, teremos as graças necessárias para enfrentá-lo e sair vitoriosos.
Mas se o que importa é o dia de hoje, por que Jesus repetiu cinco vezes: «Não vos angustieis», se o que nos parece é que justamente a vida é acosso, angústia e preocupação? Como não há-de angustiar-nos a vida? E se a nós tanto nos angustia com que crueldade a sentirão tantos que pelo mundo fora sofrem o desemprego e a fome?
Enganou-se, Jesus? Talvez não. Se assumirmos que Ele falava aos que já possuíam, talvez não se tenha enganado. Se considerarmos que Jesus falava para os que detêm o mundo nas mãos, obviamente que não se enganou.
Olhemos bem: que parte cabe aos que já possuem? Que esperam deles os que nada têm? Esperam migalhas, obviamente. (Ou algo mais.) Esperam que nos recordemos que através das nossas mãos, através da nossa inteligência e das nossas acções a compaixão pode reverter-lhes, erguê-los e saciar as suas necessidades.
(Já viu as fotos do aparecimento da multidão dos sitiados de Yarmouk, na Síria?)
Com os estômagos cheios é fácil falar de Deus e mais fácil ainda rezar-Lhe. Mas aos que passam fome isso é gozo e mofa. Poderemos nós refugiar--nos no conforto do culto, qual caixa forte do Tio Patinhas? Como encaramos o facto de que parte substancial da humanidade não possa olhar o céu porque busca no fundo da malga as migalhas que tardam em cair da nossa mão?
Nós, cristãos, somos permanente convidados a rever as nossas prioridades, e a alargar as fronteiras do nosso eu. Somos convidados à angústia, não a fim de termos mais ou como haveremos de mais ter, mas para descortinar como se possa chegar a uma partilha mais efectiva e que não humilhe a quem recebe.
Deixe-me ver se acerto nas suas angústias: o índice do colesterol?, da diabetes?, a contaminação do ar?, da água?, o que há-de fazer no fim de semana?, qual a mascarilha do carnaval?, nas férias do verão? — Obviamente, você só pensa nisso por que tem muito e provavelmente em excesso.
(Ao menos comparando com os que nada têm!)
Mas preocupando-se assim jamais acrescentará uma hora à sua vida. Vale mais, portanto, confiar que Deus Pai não nos faltará: que não faltará aos que têm nem aos que de tudo carecem.
Cabe-nos caminhar. E confiar. E sem angústias buscar o Reino de Deus e a sua justiça e o império do seu amor, porque Deus não falta, só Deus não falta. Dele foi o ontem, é o hoje e será o amanhã. Já se deu conta que Deus precisa do seu coração e das suas mãos para dar da Sua misericórdia?
Chama do Carmo I NS 218 I Março 2 2014
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