quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Oração carmelita para o primeiro dia do ano

À vossa proteção nos acolhemos,
Santa Mãe de Deus,

Rainha do Carmelo,
verdadeira Mãe dos Carmelitas.

Lembrai-vos da vossa ternura
e misericórdia para connosco

e continuai a proteger e a favorecer
a vossa Ordem do Carmo,

com vossa presença de Mãe solícita e amorosa,
concedendo-nos o dom de vivermos as vossas virtudes.

Não desprezeis as nossas súplicas,
em nossas necessidades,
e concedei-nos as graças que mais precisamos...

Mãe do Carmo,
olhai para o vosso Escapulário,

que trazemos com devoção,
sinal de vossa aliança connosco;

e livrai-nos sempre de todos os perigos,
em especial de vos sermos ingratos

e de ofendermos o Nosso Deus,
Nosso Pai tão querido!

Mãe e Rainha do Carmelo,
rogai por nós!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Oração para o fim do ano

Senhor Deus, dono do tempo e da eternidade,
Vosso é o hoje e o amanhã, o passado e o futuro.
Ao acabar mais um ano, quero dizer-Vos obrigado
por tudo aquilo que recebi de Vós.

Obrigado pela vida e pelo amor, pelas flores, pelo ar
e pelo sol, pela alegria e pela dor,
pelo que é possível e pelo que não foi.

Ofereço-Vos tudo o que fiz neste ano:
o trabalho que pude realizar,
as coisas que passaram pelas minhas mãos
e o que com elas pude construir.
Apresento-Vos as pessoas com que ao longo destes meses
pude conviver:
as amizades novas e as antigas,
os que estão perto de mim e os que estão mais longe,
os que me deram a mão e aqueles a quem pude ajudar,
aqueles com quem partilhei a vida, o trabalho, a dor e a alegria.

Quero também, Senhor, pedir-Vos perdão.
Perdão pelo tempo perdido, pelo dinheiro mal gasto,
pelas palavras inúteis e pelo amor desperdiçado.
Perdão pelas obras vazias e pelo trabalho mal feito,
perdão pela vida vivida sem entusiasmo e sem compromisso.
Perdão também, Senhor, pela oração que aos poucos fui adiando
e que agora venho apresentar-Vos.
Perdão por todos os meus esquecimentos descuidos e silêncios.

Amanhã começaremos um novo ano.
Por isso, paro a minha vida diante do novo
calendário que ainda não se iniciou
e apresento-Vos estes dias novos,
que somente Vós sabeis se os chegarei a viver.

Peço-Vos hoje, para mim, meus familiares e amigos,
a paz e a alegria,
a fortaleza e a prudência, a lucidez e a sabedoria.
Quero viver cada dia com optimismo e bondade,
levando a toda a parte um coração cheio de compreensão e paz.

Fechai meus ouvidos a toda falsidade,
os meus lábios às palavras mentirosas, egoístas ou que magoem.
Abri o meu ser a tudo o que é bom.
Que meu espírito seja repleto de bênçãos
para que as derrame por onde eu passar.

Concedei, Senhor, aos meus amigos sabedoria, paz e amor.
E que nossa amizade dure para sempre em nossos corações.
Enchei-me, também, de bondade e alegria,
para que todas as pessoas que eu encontrar no meu caminho
possam descobrir em mim um pouquinho de Vós.
Dai-nos um ano feliz, e ensina-nos a repartir felicidade.
Amém!

Já viu um presépio assim?

Agora já! (Não é verdade?)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Comentário ao Haikus de Natal do Pe Ernesto

A Chama é lida. E é lida em muitos lugares. Hoje, via mail, chegou este comentário do sr. António Branco, de Gafanha da Nazaré, Ílhavo, sempre atento à vida da nossa comunidade. Aqui fica o seu testemunho sobre a leitura do Haikus de Natal. Agradecemos-lhe o comentário e publicamo-lo com muito gosto, pois é sempre bem-vindo a esta casa.
Existem várias formas de interpretar a palavra CHAMA, as quais passo a citar:
— utilizando a voz para chamar à atenção de outrem;
— de fogo, para utilização de fins domésticos e industriais;
— de fogo descontrolado, que conforme a matéria em combustão, poderá devorar uma habitação, industria, navio, etc...
— de fogo descontrolado, que com as condições atmosféricas favoráveis, em plena mata, se torna incontrolável pelo próprio ser humano, ceifando vidas, e destruindo tudo o que se encontra no seu caminho, e só parando junto de uma clareira onde o ser humano com material adequado o poderá controlar.
Vem isto a propósito do boletim informativo do Convento do Carmo dos Carmelitas de Viana do Castelo N.º 50, com data de 27.12.2009.
Se o fogo devasta e percorre quilómetros em escassos minutos, o boletim CHAMA foi mais rápido a chegar à minha casa do que o próprio fogo.
Hoje pelas 15 horas, encontrei sobre a mesa onde faço as refeições com os meus familiares, o boletim informativo CHAMA do Carmo de Viana do Castelo n.º 50, com a data de hoje, o qual despertou a atenção e que em poucos minutos procedi à leitura do mesmo, devorando o seu conteúdo em poucos instantes.
Também me despertou encontrar no mesmo Boletim uns versos sem rima e métrica; voltando de novo a ler os mesmos devagar e atenciosamente, medindo e interpretando à minha maneira o que nele constava, surpreendendo-me pela positiva e comecei a recitá-los em voz alta, umas vezes com um tom de voz meigo alternando com a irritação de voz que sou possuidor, e verifiquei que é um poema desde que se coloquem as virgulas para respiração é um dos poemas mais bonitos que já li.
Despertou-me saber quem era o autor do mesmo. De novo reiniciei a leitura da CHAMA, e verifiquei que o autor é P. Ernesto Herrero, pessoa que não tenho ainda o prazer de conhecer mas que espero vir a conhecer um dia mais tarde, e só me resta dizer “continua P. Ernesto Herrero o caminho que traçaste para ti mesmo é o caminho de Deus, porque falas na vida, razão, menino, aurora, luzes, Deus, nascer, Maria e José, caminhos, lírios, felicidade, Belém, estrela, luz, Jesus, peregrina, Natal, Criador, suspiro, itinerário, verdade, imortal, memória, encontrar, brisa, lamentos...”, palavras que nos ensinam os caminhos do Menino Jesus.
António Branco

domingo, 27 de dezembro de 2009

Exame de consciência

Um pouco mais de meditação em dia da família. E por que não um exame de consciência. Eis algumas questões familiares.

I.
«Não vos iludais, irmãos: quem trai a família não herdará o Reino de Deus» (Santo Inácio de Antioquia aos Efésios). Pensemos em algumas formas de traição ao amor, pois elas fracturam e, muitas vezes, ferem de morte a comunidade familiar:

1. o individualismo, que supõe um uso da liberdade, pelo qual o sujeito faz o que quer, o que lhe apraz, o que lhe apetece, sem ter em conta os outros;
2. a procura do prazer individual e dos próprios interesses acima dos interesses comuns;
3. a infidelidade, nos pensamentos, nos desejos, nos actos;
4. a intimidade e as expressões do “amor”, orientadas para a satisfação imediata e egoísta dos próprios desejos, assumidas como divertimento, fazendo da outra pessoa objecto de consumo imediato e descomprometido;
5. a mentira, a falta de respeito à palavra dada e a ausência de diálogo;
6. a incapacidade para se dar totalmente;
7. a facilidade na ameaça e na concretização do divórcio.

II.
O compromisso matrimonial supõe, por outro lado, um compromisso com a vida. Tudo aquilo que nega a vocação da família a ser “santuário da vida” atenta contra a verdade e a integridade da própria família. Pensemos em algumas formas de traição à Vida:

1. a violência das palavras e dos gestos;
2. o desprezo pela dignidade dos idosos, dos doentes, das pessoas portadoras de deficiência;
3. a recusa de um filho ou de «mais um filho», por mero comodismo ou pela ideia
insuportável de este poder ser mais um “peso” na família;
4. o desprezo pela integridade física e moral do corpo, nomeadamente pelo descuido da saúde e do descanso;
5. o aborto provocado, aconselhado, consentido ou praticado.

III.
Na família transmitem-se, com a fé, os valores humanos e cristãos da alegria, da coragem, da persistência, do amor ao trabalho, do respeito pelo próximo, da prática da justiça, da solidariedade fraterna, do acolhimento aos outros, do
sofrimento e da dor. Pensemos no nosso estilo de vida, contaminado pela mentalidade pagã, e que facilmente trai a nossa dignidade de filhos de Deus:

1. a procura exclusiva do bem-estar material, assente em ilusões e necessidades inúteis e que leva o reinado do «ter» sobre o «ser»;
2. a prioridade ao que efémero ou passageiro;
3. a prioridade ao que é mais fácil, ao que não exige luta ou sacrifício;
4. a recusa de tudo o que exija esforço, fidelidade, compromisso e sacrifício;
5. a vida vivida ao sabor do imediato e do momento; sem valores duradouros
6. o medo e o adiar das opções definitivas, sem compromissos sérios;
7. o uso imoderado, indiscriminado, acrítico e desacompanhado dos meios de comunicação social.

IV.
“Para amar, à maneira de Deus, é necessário viver nEle e viver dEle. Deus é a primeira «casa» do homem, e somente quem nele habita, arde com o fogo da caridade divina” (Bento XVI). Pensemos em algumas formas de empobrecimento espiritual, que enfraquecem a vivência cristã e a resistência da família aos riscos da cultura actual:

1. o descuido da oração pessoal, conjugal e familiar;
2. a indisponibilidade para a escuta e reflexão da Palavra de Deus;
3. a falta de participação nos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia;
4. o desrespeito pelo Domingo, como dia da pessoa e da Família: dia do repouso, da alegria, da celebração de aniversários, do convívio, do diálogo entre os esposos e entre pais e filhos, da solidariedade (com os parentes doentes, com os mais idosos, com as famílias em dificuldades, com as famílias imigradas).
5. o desprezo pelo Domingo, como o dia da Igreja, que se reúne à volta da mesa da Eucaristia, para celebrar o dom da Vida de Cristo ao Pai por nós.
6. o desprezo pelo Domingo, como «o dia da Igreja Doméstica» em que são purificados e reforçados os laços do amor e da unidade familiares;
7. o desinteresse pelas actividades pastorais da comunidade: catequese, educação da fé, obras sociais e de caridade.

Não nos faltar contar o Natal?

Não nos falta contar o Natal? Hoje é o dia da família cristã que encontra o seu modelo na de Jesus, Maria e José. Pergunto-me que saberão os nossos filhos do Natal. Para ilustrar a minha inquietação aqui fica uma história. Lá que ajuda a reflectir, isso ajuda. Experiemente ler:

Conta-se que o grande Rabbi Israel Baal Shem-Tov, ao ver a desgraça a ameaçar os judeus, costumava dirigir-se a um determinado lugar na floresta para meditar. Quando lá chegava, acendia uma luz e dizia uma oração apropriada; o milagre realizava-se e a desgraça afastava-se. Mais tarde, quando a desgraça voltava a ameaçar, o seu célebre discípulo, Magid de Mezeritch, dirigia-se para o mesmo lugar, na floresta, e dizia: «Senhor do universo, escuta! Não sei acender a luz, mas ainda sou capaz de dizer a oração». E o milagre realizava-se outra vez. Mais tarde ainda, Rabbi Moshe-Leib de Sassov, para salvar uma vez mais o seu povo, dirigia-se para a floresta e dizia: «Não sei acender a luz, não sei a oração, mas sei o lugar e isto será suficiente». Era suficiente, e o milagre voltava a realizar-se.
Aconteceu depois vir a desgraça sobre Rabbi Israel de Rizhin. Este sentou-se na sua cadeira de braços, pôs a cabeça entre as mãos, e falou a Deus: «Já nem sequer sei encontrar o lugar na floresta. Tudo o que posso fazer é contar a história, e isto deve ser suficiente».
E era suficiente.
Elie Wiesel, em As portas da floresta.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Haikus* de Natal

* O HAIKU é uma forma poética japonesa de três versos curtos que atingiu o seu apogeu no séc. XIX e vive um renascimento; expressa uma percepção da natureza.


Se a palmeira pudesse
tornar-se tão nina, nina
que o Menino a visse.

Gerardo Diego

No princípio
a Razão fez-se Vida
verdadeira.

A seguir, a vida
fez-se verdade
Razão inteira.

Verdade era a carne
Razão iluminada
de um Menino.

De tamanho natural
a luz e o Menino
foram aurora.

No meio do silêncio
a Palavra incarnou
o Menino falou.

Tão divina a Palavra,
as luzes
sonharam Deus.

Ninguém sabia
quem pudesse ser
ao nascer.

Maria e José
tiveram de aprender
a proceder com o Menino.

Quem era este Menino
onde iria
pelos caminhos.

Caminhos de ribeira
pela beira dos trigos
e dos lírios.

Pensaram e duvidaram
da divina infância
como meninos.

Desde o seu alto saber
pelo proceder
de um menino.

Encantou a sua figura
a quantos viram
como Deus era.

Cantaram aleluias
sorrisos e palavras
ao Menino.

Tão curta a felicidade,
tão longo o caminho
Cruz e condenação.

Aconteceu em Belém
uma noite escura
e a estrela.

A estrela desvelou
o tule da noite
caudais de luz.


Aurora iluminada
cravo o Menino
chamado Jesus.

Palavra criadora
peregrina
e revelação.

Breve a rosa
orvalho matutino
sorriso de Deus.

Natal és tu
puro menino
com destino.

Doce sorrir
do Menino
seu anúncio.

Voltou o Menino
a criar a luz
Deus Criador.

Breve o instante
nascer e morrer
longo suspiro.

Belém e Tabor
Tabor e Calvário:
o seu itinerário.

Deus-Homem
o homem-Deus
no Menino.

Vida e caminho,
verdade imortal
do Menino.

Visto e não visto
adivinhar a Deus
sem dizê-lo.

Estrela da noite
alma iluminada
a esperança.

Memória da infância
encantado paraíso
ao amanhecer.

Sono e ilusão
encontrar no Menino
a Deus.

Esperança incessante
vislumbrar a Deus
no Menino.

Encontro final
da Verdade
imortal.

Transita pela vida
como a brisa
e bebe-a.

Brisa e canção
de Natal
sem final.

Não lamentes o ontem
hoje sempre presente
no Menino.

Infinita memória
felicidade ausente
que se busca.

Hoje será amanhã
de prata e ouro
e escarlate.

Nunca mais a noite
só Natal
para sempre.

(P. Ernesto Herrero, Carmelita Descalço)

Festa da Sagrada Família

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Saudação de Natal do Padre Geral, Frei Silverio Cannistrà

«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam terras de sombra e uma luz brilhou para eles.»

Queridos irmãos e irmãs no Carmelo de Santa Teresa: com estas palavras do profeta Isaías abrir-se-á a Liturgia da palavra na Missa da Meia Noite. A Vigília de Natal, filha da grande vigília da Páscoa, traz-nos mais um ano o anúncio de uma grande notícia: «Hoje nos nasceu um Salvador; o Messias, o Senhor».´
Com os pastores havemos de escutar a voz do Anjo que nos anuncia o cumprimento das promessas de Deus, numa maneira que excede os nossos mais belos sonhos: nos braços de Maria e de Jesus encontramos o Menino envolvido em panos e deitado numa mangedoira; e com os coros angélicos cantamos cheios de alegria: «Glória a Deus no céu e na terra paz aos homens de boa vontade»!
Sim, Deus ama-nos ao ponto de assumir a nossa carne, de partilhar a nossa vida. Muito para além dos nossos inexistentes méritos «Apareceu a bondade de Deus e o seu amor pelo homem. Não pelas obras de justiça que nós tenhamos feito, mas segundo a sua própria misericórdia Ele nos salvou», diz-nos São Paulo.
Baixando à terra, Cristo abriu-nos o caminho do céu. Fazendo-se homem, fez-nos participar da sua natureza divina.
Em espanto, juntamente com Maria, Rainha e Mãe do carmo, contemplamos o admirável intercâmbio: um Deus que chora e uns homens que riem!
Não existe outro Caminho, outra Verdade, outra Vida: Só Cristo. Por Ele «somos, em esperança, herdeiros da vida eterna». Na sua humanidade, carne que abraça a nossa carne, estão todos os tesouros. Ela é a porta que nos abre o segredo do sentido da nossa própria vida em comunhão com Deus «para alegrar a Deus para que nos conceda grandes favores, quer que seja pela mão desta humanidade Sacratíssima, em quem sua majestade se deleita. Por esta porta havemos de entrar se queremos que a soberana Majestade nos mostre grandes segredos (Teresa de Jesus, Livro da Vida).
Recebamos esta luz e levemo-la a todos. Pela nossa oração e pela nossa vida comunitária, com abnegação e o nosso trabalho apostólico, sejamos pregoeiros da misericórdia que hoje se manifesta.
Santo e feliz Natal.
Feliz anos de 2010 na paz de Cristo.
fr. Saverio Cannistrà, ocd Prep. Gen.

Natal

O Natal não é ornamento: é fermento.
É um impulso divino que irrompe pelo interior da história,
Uma expectativa de semente lançada,
Um alvoroço que nos acorda
para a dicção surpreendente que Deus faz
da nossa humanidade!

O Natal não é ornamento: é fermento.
Dentro de nós recria, amplia, expande!
O Natal não se confunde com o tráfico sonolento dos símbolos
nem se deixa aprisionar ao consumismo sonoro de ocasião
A simplicidade que nos propõe
não é o simplismo ágil das frases-feitas
Os gestos que melhor o desenham
não são os da coreografia previsível das convenções

O Natal não é ornamento: é movimento
Teremos sempre de caminhar para o encontrar!
Entre a noite e o dia
Entre a tarefa e o dom
Entre o nosso conhecimento e o nosso desejo
Entre a palavra e o silêncio que buscamos
Uma estrela nos guiará!
Tolentino Mendonça

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Cartão de Boas Festas

(A Comunidade dos Carmelitas Descalços de Viana do Castelo vista pelos lápis da Marta Tavares, de oito anos!)

Caríssimos amigos e amigas, graçã e bênção! É Natal mais uma vez, porque Deus quer. Porque Deus quis vir ao mundo dos humanos. Mais uma vez Ele vem, porque quer vir para nós. vem para nos encher de Paz, de Amor, de Alegria.
Natal é Deus que vem e nós, meninos, a vê-lO chegar para fazermos festa, para fazermos família, para O sentarmos à nossa mesa. E nós, meninos, a vê-lO com olhos grandes, espantados por tanto calor e tanto carinho. Obrigado, Jesus, por nos desejares Feliz Natal.

Caríssimos irmãos e irmãs, os votos de Jesus são os votos dos religiosos da Comunidade do Carmo de Viana do Castelo para todos os nossos familiares e amigos, colaboradores e benfeitores. Feliz Natal, feliz ano de 2010 cheio de bênçãos de Deus.
A Comunidade do Carmo

Não havia necessidade

Votos de Natal e Ano Novo

(Desenho de Marta Tavares, 8 anos)

Votos de Santo Natal e feliz Ano novo.

Que o mundo seja mais sereno e místico como João da Cruz.
Mais perseverante e orante como a Teresa de Jesus.
Mais servidor e persistente como Ana de São Bartolomeu.
Mais discreto como Teresa Margarida Redi.
Mais gentil e missionário como Teresinha do Menino Jesus.
Mais puro e dócil como Teresa de Los Andes.
Mais trinitário como Isabel da Trindade.
Mais justo e verdadeiro como Edith Stein.
Mais eucarístico como Rafael Kalinowski.
Mais amável como as irmãs que no segredo oram pelo mundo.
Mais zelosos como os frades que descem do monte.

Enfim, pensemos...
Que estes esforços nos devam elevar às moradas superiores.
Nos devam tornar mais real a leitura do Livro da Vida.
Para que os Cânticos Espirituais fiquem mais suaves.
A Ciência da Cruz mais compreensível.
A História de uma Alma fique ainda mais bela.
A Subida ao Monte Carmelo mais fácil.
Os nossos jovens escutem mais o chamamento de Deus.
O barulho seja substituído pela solidão sonora.
As nossas crianças recebam mais presença e amor e menos dor.
As nossas comunidades perfumem mais o mundo com a sua vida.
(A partir dum texto dos seculares de São José)

domingo, 20 de dezembro de 2009

CD de Santa Teresa de Jesus

Caríssimas Irmãs e Irmãos no Carmelo
Só Deus basta!
Todos nós, no Carmelo, estamos a preparar-nos para celebrar com júbilo o V Centenário do nascimento da nossa Santa Madre.
A Fraternidade Stella Maris do Carmelo Secular do Porto quis, neste âmbito, dar um contributo para estas comemorações e prestar uma homenagem a Santa Teresa de Jesus.
Durante quase um ano trabalhou-se na concepção, realização, produção e gravação dum CD com as poesias escritos de Santa Teresa, musicados, e algumas músicas de homenagem à nossa fundadora.
O projecto, depois de muitas dificuldades, está concluído. O CD intitulado “Só Deus basta” (Santa Teresa de Jesus) está agora à disposição de todos.
Parte das músicas são da autoria dum nosso irmão e conta também com duas belíssimas poesias duma nossa irmã.
É um CD contemplativo, fruto de oração e um subsídio para a oração. Na sua simplicidade, e quase pobreza, tem como objectivo conduzir as almas para o mergulho no Absoluto.
Desejamos que o CD, com as suas músicas e poesias, seja do agrado de todos e que nos ajude a bem preparar para o Centenário e a divulgar a espiritualidade desta grande mulher e grande santa.
O CD está disponível mediante pedido às Edições Carmelo (www.carmelo.pt; editorial@carmelo.pt). Esperemos que todas as irmãs e irmãos o adquiram e o divulguem entre familiares, amigos e benfeitores.
Pedia a caridade de nos fazerem chegar as vossas apreciações sobre o CD por email ou por correio postal (tojo.ocds@gmail.com).
A todos votos de um Santo Natal cheio das maiores bênçãos do Deus Menino.
Com saudações fraternas
Vosso em Jesus
António José Gomes Machado, ocds

sábado, 19 de dezembro de 2009

Domingo IV do Advento

Natal, olhar sereno!

Já é Natal? Não, ainda é Advento. Ainda é tempo de preparar o Natal. O Natal enquanto vinda e nascimento do Senhor exige um esperançoso trabalho de preparação: o Advento.
Então, Natal não é sempre que o homem quer? Não, também não. Natal é sempre, porque Deus quer. A parte do homem que tantas vezes se invoca no provérbio é bastas vezes a parte das luzinhas e musiquinhas, que só apelam à estapafúrdia do comércio. Seja de sentimentos nem sempre sinceros e transparentes, seja de coisas e mais coisas sem alma. E depois desse natal em que se rompem os laços e se rasgam os lustrosos papéis de embrulho pouco mais resta que a lareira de cinza fria.
O Natal é mais que laços, mais que papéis e fitinhas. São palhinhas e bafinho de animais congregados para aquecer e saudar o ignorado Jesus Salvador. Dentro de cinco dias é Natal. Porém, há ainda muito nevoeiro que remover. Natal. Olhar sereno. Olha que Deus te olha com amor. Olha teu irmão.

Natal
«O boi conhece o seu dono e o burro as palhas onde se deita, mas o meu povo não me conhece». Foi assim que acordei para o Advento, com este queixume de Deus, declarado na profecia de Isaías.
É (quase) Natal. A vaquinha estará junto ao dono, e o burrinho às palhinhas onde a Mãe deitará o seu dono. A Mãe, calada; o pai, silencioso. Os pastores virão quando avisados pelos anjos, e os Magos, pela estrela.
É Natal? É. Porque Deus quer e não tem medo de nós. Bastam-Lhe palhas fofas em nosso coração!

Olhar sereno
Olhar sereno tem Ele para nós, que no acordar terreno foi acolhido por um Justo e uma Imaculada. Olhar sereno, sim. Como só sereno é o olhar dos puros. Não tenhas medo, meu Menino. Não tenhas medo, que entre nós, agrestes, ainda há lábios puros para beijar meninos e mãos delicadas para os afagar. E olhos de espanto e de lágrimas perante o milagre de caber no mundo o que no Céu não coube!

Olha que Deus te olha
Olhar sereno para contemplar a Deus Menino; para contemplar o mimo de Deus, que nos revela o seu rosto que ninguém viu — a não ser o Filho — no rostinho do Menino de Belém!
Olha, Maria, que Deus te olha! Como Deus te olha!
Olha, José, que Deus te olha! Como Deus te olha!
Olhai, irmãos, olhai, pastores, que Deus nos olha! Olhai como Deus nos olha!
Ó feliz troca de olhares! Deus que nos olha e nós, humanidade para quem vem, olhando-O!
Ó serenidade, ó olhar de Deus!
Oh! valha-me Deus que nos olha com olhar puro, de menino como os nossos meninos. Que sempre tem para nós um olhar de bondade. Que sempre tem para nós presença que nos veste de formosura.
Oh! quem mereceria um Menino assim? Quem poderia querer ou esperar tão doce olhar, presença tão cálida, tão silenciosa e rica? Cessem as agruras, os frios e as nervuras, que Deus vem para olhar por nós. Que Deus vem olhar para nós! Oh! cessem, pois! Quem pode dizer esse olhar que nos olha sem nos magoar, esse olhar de bem e de cura que em nós derrama beleza, graça e formosura?
Ó suavidade do meu Deus, que nos toca suavemente a alma com o luar do seu olhar! Com o luar duns olhos de rosal!

Com amor
Ó olhar dum Senhor que é servo! Dum Senhor que nos serve porque nos serve; Ele vem para nós, servo humilde e pobre. Vem para dar, para dar-se como herança imerecida e inesperada, e tudo reclamar de nós porque tudo é Dele, criado por Ele, e a Palavra é salvação ainda que só seja gemido, vagido frágil, letra trémula, soletrada.
Ele vem olhar-nos com amor porque não sabe outra linguagem, outro abecedário com que possa dizer- se, outro dizer sem dizer.
Amor com amor se paga. Porém, facas de gume afiado e traições foi o que tantas vezes demos. Bênção e compreensão o que sempre nos devolveu. Com amor. Porque Deus é amar.

Olha teu irmão
Olha sereno o teu irmão. Muitos anos depois do nascimento do Salvador algo poderíamos ter aprendido. Mas a verdade é que ainda existem meninos que nascem em sítios que não são para nascer. A verdade é que existem crianças, homens e mulheres, velhos e doentes que vivem em sítios que não são de viver. E a verdade é que ainda assim é porque se é muito belo olhar o Deus Menino que nos olha com olhos de bondade, já não é tão belo olhar quem nos olha com olhos de fome, de desemprego, de droga, de violação, de velhice e de doença.
Em Jesus Deus vem ao encontro de cada um, e a cada um que olha leva-o serenamente ao encontro do irmão. Cuidadosamente, olha sereno o teu irmão.
E olha que Deus te olha no olhar do teu irmão.
Chama do Carmo I NS 49 I 20 de Dezembro de 2009

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Presentes à pressa

Pressa. Pressa. os próximos dias são de pressa, de muita pressa. E depois da pressa muito ficará ainda por concretizar. Por isso, para este Natal, aceita as seguintes sugestões:
1. Ofereça o Menino Jesus de presente; torne-O presente aos outros. Leve-O, a toda a pressa, aos que mais precisam do anúncio da sua presença!
2. Faça parte dos presentes! Procure estar presente e fazer da sua presença humilde o presente escondido, que guarda no coração!
3. Faça das visitas uma partilha interior do mistério da vida. Não raro, vivemos sós, no meio de multidões, sem termos tempo para ouvir, nem gente para nos escutar e compreender.
4. Dê prioridade à alegria de Deus. Que o Menino Jesus lhe provoque um verdadeiro sobressalto de alegria.

Retiro de Advento

No passado sábado, ante-véspera da Solenidade de São João da Cruz, decorreu mais um retiro para os leigos da nossa Comunidade. Momento sempre solene e proveitoso para quantos tomam a peito acolher mais uma graça da liberalidade de Deus. Agradecemos ao P. Alpoim Portugal a gentileza e sabedoria espiritual com que dirigiu o retiro. Em jeito de partilha fica o testemunho da Judite Teixeira que participou integralmente no retiro.


Recriar a vida no advento
Como vem sendo costume, mais uma vez, no passado dia 12 de Dezembro, coração do Advento e dia de tantos trabalhos, decorreu o Retiro de Advento da Comunidade do Carmo e de outras pessoas que se quiseram associar. Dezanove, no total.
Imersos na cidade, mas dela retirados e adentrados nos espaços sagrados do Carmo, no seu silêncio e na sua paz, decorreu, desde as 10:00h até às 19:00h (concluiu com a Missa vespertina) mais um Retiro de Advento.
Recriar a vida no Advento, encontrá-la na totalidade, assim foi o nosso encontro e a experiência espiritual única, na apresentação do tema “A Bem-aventurada Isabel da Trindade e a Virgem da Encarnação”, pelo Pe Alpoim Portugal, Carmelita do Centro de Espiritualidade da nossa Ordem.
Jesus vive na sua Palavra, vive na comunidade, no grupo, vive em cada um de nós que luta por amar e viver em Cristo. Que luta por aprofundar a vida interior como Maria.
Bem haja a esta família carmelita de Viana do Castelo, que nos proporciona estes belos encontros de silêncio e oração. Aproveitemos esta dádiva e que cada um de nós no próximo retiro traga um amigo. E o próximo é já ali, no dia 13 de Março, também Sábado, em pleno tempo da Quaresma, o tempo favorável do retorno ao Senhor!
Judite Teixeira

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Na solenidade de São João da Cruz

Em João, recordamos a luz que irradia,
na Terra, o mistério glorioso da cruz!
A cruz que em seu corpo traz ele gravada,
ainda, em espírito, a Paixão reproduz.

A glória da cruz, como paga, queria
por prémio de quanto já havia sofrido!
Seu lema era ter, em si mesmo gravado
o Cristo, na cruz, humilhado e ferido.

Nem golpes, cilícios, penosos açoites;
nem rudes jejuns o puderam conter,
cadeias, ofensas, jamais conseguiram
saciar sua sede de mais padecer.

Da noite da fé, densas trevas vencendo,
descobre, no escuro, o segredo de amar.
A chama recebe e a todos transmite
que a luz no Carmelo e na Igreja a brilhar.

A ti, ó Senhor, o louvor dos teus anjos;
doa teus consagrados, o amor indiviso.
Que este, de João, seguindo a doutrina,
prelibem doçuras do teu paraíso. Ámen.

The dark night of the soul (Loreena McKennitt)

Que bela maneira de saudar São João da Crunz no seu dia!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Senhor, dá-nos o suficiente

Senhor, dá-nos suficiente alegria para sermos amáveis.
Senhor, dá-nos suficiente dor para sermos humanos.
Senhor, dá-nos suficiente esperança para sermos felizes.
Senhor, dá-nos suficientes êxitos para sermos entusiastas.
Senhor, dá-nos suficientes fracassos, para sermos humildes.
Senhor, dá-nos suficientes amigos que nos deitem a mão.
Senhor, dá-nos suficientes inimigos, para amarmos de verdade.
Senhor, dá-nos suficientes coisas, para não morrermos atulhados.
Senhor, dá-nos suficiente fé, para crescer na esperança e no Amor.
Senhor, dá-nos o suficiente para ter tudo o possível de Deus,
para sobretudo sermos felizes!
(Autor anónimo)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Que havemos de fazer?

1. Hoje, precisamente hoje, procurarei viver o presente, sem querer resolver todos os problemas da minha vida, inteiramente e de uma só vez!

2. Hoje, precisamente hoje, terei o máximo cuidado pelo meu aspecto: vestirei com sobriedade; não levantarei a voz; serei gentil nos modos; a ninguém criticarei; não pretenderei melhorar ou disciplinar alguém, a não ser a mim mesmo!

3. Hoje, precisamente hoje, serei feliz, na certeza de que fui criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste!

4. Hoje precisamente hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.

5. Hoje, precisamente hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando que assim como o alimento é necessário para a vida do corpo, também a boa leitura é necessária para a vida da alma!

6. Hoje, precisamente hoje, realizarei uma boa acção e não o direi a ninguém.

7. Hoje, precisamente hoje, farei algo que não gosto de fazer, e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, farei de modo que ninguém o perceba.

8. Hoje, precisamente hoje, organizarei um programa: talvez não o siga exactamente, mas organizá-lo-ei. E tomarei cuidado com dois defeitos: a pressa e a indecisão.

9. Hoje, precisamente hoje, acreditarei firmemente, não obstante as aparências, que a boa providência de Deus se ocupa de mim, como de mais ninguém no mundo.

10. Hoje, precisamente hoje, não temerei. De modo particular, não terei medo de desfrutar do que é belo e de acreditar na bondade!

Seja também para nós este único propósito: "Quero ser bom, hoje, sempre, com todos".
(João XXIII)

Domingo III do Advento

Ó noite mais clara que o meio-dia!

São João da Cruz é o primeiro descalço da Ordem Carmelitana. Teve uma existência curta de 49 anos, carismática e sofrida mas bastante geradora de vida. É o místico do despojamento, da desnudez espiritual, da totalidade de Deus e do amor à Cruz.
Nasceu perto de Ávila, em Fontiveros, Espanha, no ano de 1542. É filho de tecelões pobres.
Ingressou na Ordem do Carmo aos vinte anos, depois de ter estudado humanidades com os Jesuítas de Medina del Campo. Em Salamanca cursou Teologia e destacou-se dos seus colegas, razão por que foi nomeado prefeito dos estudantes Carmelitas.
Foi ordenado sacerdote em 1567, altura em que se encontrou com S. Teresa de Jesus que tratou de o entusiasmar com a nova Ordem do Carmo que estava prestes a gerar. Tornou-se então o primeiro Carmelita Descalço. Fundou o carmo Descalço no lugarzinho perdido de Duruelo, que será também o início duma história de incompreensões e perseguições de quantos se opunham à sua reforma. Feito prisioneiro no cárcere do Carmo de Toledo sofreu maus tratos e agressões físicas. Daquela reclusão de nove meses donde acabará evadindo-se, nascerá um santo conhecido como um dos maiores místicos, cujo itinerário espiritual continua a ser seguido por numerosos discípulos. S. Teresa de Jesus, S. Teresinha, S. Rafael Kalinowski, S. Paulo da Cruz, B. Isabel da Trindade, S. Edith Stein e o papa João Paulo II estão entre os seus mais fiéis.
Morreu no dia 14 de Dezembro de 1591.
As melhores descrições que dele existem são as de S. Teresa, que, embora, não tendo convivido muito tempo com ele, o conheceu profundamente. Diz a Madre: «O padre Frei João da Cruz é uma das almas mais puras que Deus tem na sua Igreja. Nosso Senhor infundiu lhe grandes riquezas da sabedoria celeste.»
Ela sabia do que falava.
A sua sabedoria espiritual não é fácil de sintetizar. O seu magistério une vida santa e ciência sagrada. O Papa Pio XI, que lhe conferiu o título de Doutor Místico da Igreja, baptizou as suas obras como «código e escola da alma fiel que se propõe empreender uma vida mais perfeita.»
Nos seus escritos nunca fala de si, embora os estudiosos identifiquem alguns textos como narrativa pessoal. Os seus ensinamentos visaram sempre e só conduzir as almas para Deus, isto é, uni-las a Ele por amor e pela transformação perfeita em Deus, até ao máximo seguimento e identificação com Jesus Cristo nesta vida.
Recorda frequentemente aos seus leitores que o cume da montanha é a sublime perfeição e deseja que todos a subam. A subida é necessária por que é o meio indispensável para o despojar de todas as coisas que são obstáculo à transformação em Deus.
Como profundo conhecedor do coração humano São João da Cruz ensina que «como o amor de Deus e o do homem são opostos, é preciso ir limpando a alma do amor das criaturas para que a graça a encha do amor divino.» Não pode haver melhor projecto de vida, porque facilmente se há-de entender que maior será a plenitude da alma quanto maior for o seu vazamento.
A quem se propõe seguir o caminho espiritual o Santo propõe quatro etapas ou noites; noites são o mesmo que purificações. As duas primeiras, as activas, são aquelas que a alma opera por si mesma, com o seu esforço. As segundas são aquelas em que Deus mesmo actua e purifica. São necessárias para nos fazer crescer no verdadeiro amor, que consiste em «despojar-se por Deus de tudo o que não é de Deus». A noite escura é por isso mais clara e certeira que a luz do meio-dia, porque situa o homem no seu centro mais humano e mais divino. E aqui é frequente sentir se a alma em aridez, desolação e até abandonada de Deus. Porém, porque nunca antes Dele esteve tão próxima, agora a prepara Ele para a vida e a oração místicas, que é quando a alma não fala mais, deixa de ser discursiva e permanece em silêncio amoroso diante de Deus. A alma apenas olha e cala, e a sua vontade está em Deus. E quando entra em si vê ainda trevas e vazio, que mais não são que luz em excesso. Porém, continua sendo imperfeita e com aumento da sede ardente de Deus, que mais aumenta quanto mais toma consciência dos defeitos e imperfeições. Por isso se pode dizer que o caminho espiritual da união, que São João da Cruz propõe é noite mais clara que a luz mais clara do meio–dia. É noite inundada da presença luminosa e amorosa de Deus, que tanto mais se derrama no coração humano quanto mais os baixios do coração se deixam esvaziar para O receber.

Prémio Pessoa 2009

O vencedor deste ano do Prémio Pessoa é D. Manuel Clemente, bispo do Porto. "Em tempos difíceis como os que vivemos actualmente, D. Manuel Clemente é uma referência ética para a sociedade portuguesa no seu todo", considerou o juri do prémio Pessoa.
Esta é a primeira vez que este prémio, que tem 22 anos, é atribuído a uma pessoa da Igreja.
(Fonte: Jornal Público)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Se por estes dias for a Londres...

Se até dia 24 de Janeiro for a Londres então reserve uma tarde (ou um dia) para ir à National Gallery, onde se exibe uma mostra de arte sacra com umas pitadas de sabor carmelitano, nomeadamente «o esplêndido San Juan de la Cruz» do escultor barroco sevilhano Francisco Antonio Gijón. Esta peça foi esculpida em 1675, por ocasião da beatificação do Santo para o convento sevilhano dos Remédios.
Na mostra pode ainda ver-se o Crucificado dos Desamparados (em tamanho natural!) que Martínez Montañés talhou em 1617 para o convento de S. Ângelo, de Sevilha, fundado por São João da Cruz.
Por isso, já sabe: se por estes dias for a Londres...

Com Maria no Advento

O que te peço, Senhor, é a graça de ser.
Não te peço mapas, peço-te caminhos.

O gosto dos caminhos recomeçados,
com suas surpresas, suas mudanças, sua beleza.

Não te peço coisas para segurar,
mas que as minhas mãos vazias
se entusiasmem na construção da vida.

Não te peço que pares o tempo na minha imagem predilecta,
mas que ensines meus olhos a encarar cada tempo
como uma nova oportunidade.

Afasta de mim as palavras,
que servem apenas para evocar cansaços, desânimos, distâncias.

Que eu não pense saber já tudo acerca mim e dos outros.
Mesmo quando eu não posso ou quando não tenho,
sei que posso ser, ser simplesmente.

É isso que te peço, Senhor:
a graça de ser de novo.
Tolentino Mendonça

Liturgia, fidelidade e criatividade

As duas equipas entram em campo. Conhecem detalhadamente todas as regras do jogo, já estabelecidas há muitos anos e que são iguais em todo o mundo. Combinaram cada uma a táctica para chegar à vitória. Mas, quando o árbitro apito para o início do jogo, o que vale é a agilidade e habilidade de cada jogador, a sua atenção e inteligência em perceber a quem e como deve passar a bola, a sua capacidade de entrar em empatia e entrosar com todo a equipa, a sua vontade de chegar à vitória e o prazer que sente em jogar à bola. As regras? Não é necessário preocupar-se mais com elas: depois de anos e anos a jogar, elas foram in-corporadas. O corpo inteiro sabe normalmente como agir e reagir, de modo que haja espaço para liberdade e criatividade.
A cantora está no palco, lado a lado com a orquestra. Vai interpretar uma ária das Bachianas de Vila-Lobos. Estudou a partitura durante várias semanas. Conhece profundamente a peça a ser executada e procurou entrar no espírito do compositor. Nem um dia descuidou os exercícios de voz. Leva anos de estudo de música e de treino! No momento da apresentação, já não precisa de se preocupar com a partitura porque a conhece de cor. Já superou todos os obstáculos e dificuldades ao longo da preparação. Antes de entrar no palco, fechou-se no camarim durante mais de uma hora para se concentrar. Agora está ali, inteira e concentrada na melodia que flui de dentro dela. Atinge os ouvintes. Passa uma mensagem, suscita emoção.
Será que teríamos histórias semelhantes para contar a respeito de pessoas que assumem os ministérios na celebração litúrgica: na presidência, na proclamação das leituras, na música...? Costumamos ter o mesmo zelo, a mesma dedicação? Preparamo-nos devidamente para assumir a nossa função na liturgia? Conhecemos e in-corporamos as ‘regras do jogo’ da liturgia, assim como o jogador incorporou as do futebol? Preparamos e assimilamos os textos e as acções rituais da liturgia, assim como a cantora assimilou a partitura? Aprendemos a arte de expressar o mistério através da fala, da gestualidade, da postura do corpo, da comunicação com a assembleia? Sabemos lidar com os ‘sinais sensíveis’ da liturgia, a tal ponto de levar as pessoas à participação mística, ao encontro com o Ressuscitado? Dispensamos o tempo necessário para nos concentrarmos e podermos entrar ‘por inteiro’ na celebração?
“Como fazer para que o zelo litúrgico não signifique engessamento, tristeza e seriedade excessiva na liturgia e, ao mesmo tempo, a criatividade não signifique falta de zelo litúrgico e descompromisso com as normas? Qual a linha divisória?”, pergunta alguém. Há ministros e ministras que se preocupam unicamente com as normas, as regras; o resultado é rigidez, engessamento, formalismo... que nada têm a ver com o verdadeiro espírito da liturgia que herdamos de Jesus e das primeiras comunidades. Outros ministros e ministras insistem na criatividade. Mas o que entendem por criatividade? Liturgia é uma acção ritual, cuja característica é a repetição e a fidelidade à Tradição: “Fazei isto (e não outra coisa!) em memória de mim”. Liturgia não se inventa, vive-se. O jogador de futebol não muda as regras do jogo; a cantora não inventa uma nova música, ignorando ou modificando a partitura. Ambos exercem sua criatividade ao entrar de corpo e alma no jogo de futebol ou na música; e desta entrega nasce uma interpretação sempre nova, actual, surpreendente, tocante. É deste tipo de zelo que a liturgia precisa: unindo conhecimento e respeito pelas regras com entrega total ao ‘jogo’, levando a uma vivência profunda.
Ione Buy

domingo, 6 de dezembro de 2009

Assistente Nacional das ENS

O P. Armindo Vaz foi convidado no último Encontro Nacional das Equipas de Nossa Senhora, realizado nos dias 21 e 22 de Novembro, em Fátima, para assistente nacional deste Movimento de Pastoral Familiar. São vários os religiosos carmelitas que colaboram com este Movimento, enquanto assistentes de várias equipas. Esta presença dos carmelitas junto dos casais e das famílias é um serviço que nos enriquece enquanto homens e consgrados, além de ser um serviço qualificado à Igreja. Esta nomeação do P. Armindo como assistente nacional é o reconhecimento de uma dedicação e entrega.
Além do P. Armindo Vaz que agora assume esta missão, outro carmelita, o P. Joaquim Teixeira, vem a desempenhar semelhante missão desde Maio de 2008 no Movimento «Encontro Matrimonial».
(Tomado de www.carmelitas.pt)

Santa Maria da espera

Senhor, fazei de mim um crente que saiba esperar-Vos.
Um crente que viva esperando-Vos.
Um crente que possa reconhecer-Vos quando,
sem avisar, chegueis à porta do meu coração
para me pedir um sim, como o de Maria.

Ajudai-me a compreender as esperanças
dos homens e mulheres que vivem a meu lado,
desesperando muitas vezes como se Vós não existísseis,
como se Vós jamais fôsseis chegar.

Santa Maria da espera,
modelai na minha alma uma esperança forte
que não caia quando sobrevierem as dificuldades.

Vós que assumistes as esperas do vosso povo
e soubestes responder prontamente
a Deus que vos pedia;
Dai-me, Senhora, um coração simples
e capaz de acolher a Deus que vem.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Ó Cordeira Imaculada!

O tempo do Advento tem um salutar sabor mariano. É com a Virgem Mãe que melhor aprendemos a esperar o Sol que nasce da Aurora! Por isso, é algo muito belo celebrar neste tempo litúrgico 88a Solenidade da Imaculada Conceição de Maria, a Virgem Mãe.
A Sagrada Escritura ensina que Deus criou a Humanidade para a amizade e o diálogo com Ele. A primeira Humanidade manteve uma bela relação de comunhão com o seu Criador.
O convívio era belo, aprazível e muito apreciado pelo Senhor Deus que se comprazia
em dialogar e passear com a Humanidade. Mas na sua liberdade os humanos não quiseram continuar amigos de Deus. Era sim um belo diálogo, mas acharam que poderiam construir a vida e o mundo à margem do diálogo com Deus. E romperam o belo sonho de comunhão.
No início a felicidade tocava-nos e entrava nos graciosamente pelos poros. Não era preciso invocar o Senhor porque Ele era Presença como se não tivesse havido passado que não houvera, nem viesse a existir futuro duro. Comungávamos a Presença, éramos eternos e a morte ainda nada mordera. Mas isso não nos bastou! Quisemos disfrutar a existência como se a tivéssemos construído para nós e não nos tivesse sido oferecida como dom por Deus. Haveríamos de ser autónomos, porque, afinal, a vida é minha e eu faço o que quero!
E ficamos a falar sozinhos naquele tempo em que ainda não existiam botões!
E o que era belo porque era comunhão e diálogo deixou de o ser; e o que era saúde e sadio virou tragédia e angústia. O fechamento nunca deitou luz sobre assunto algum nem esclareceu nada. E foi o que de facto aconteceu. Abandonamos a alegria da liberdade e do diálogo e tornamo-nos uma humanidade fechada, ferida, estanque a Deus, desconfiada Dele, esforçando-nos por não perceber o alfabeto do amor que em nós Ele inscrevera. Somos por isso descontrolados, paradoxais, fechados e ainda assim sensíveis ao apelo para a abertura, desencontrados e destrutivos mas com ânsias de crescimento e de beleza.
E fomos por opção própria feridos de morte, marcados pelo pecado até à morte.
A Igreja crê e ensina que ao nascermos é assim que nascemos: caminhantes solidários num beco sem saída, incapazes de só por nós nos reabrirmos a esse reconfortante, belo e recriador diálogo primeiro.
É, pode dizer-se, uma situação miserável!
E foi desta existência amarga e labiríntica que Cristo nos libertou com a sua Incarnação, vida e morte, ressurreição e com o dom do seu Espírito.
A Igreja crê e ensina que a Mãe do Cordeiro que tira o pecado do mundo, foi preservada desde antes do seu nascimento, desta solidariedade com a inimizade entre a Humanidade e Deus. Ela é a Mulher eleita, revestida de justiça e salvação, de quem haveria de nascer o Salvador. Ela é a Toda Santa, a Toda Santificada. Desde o primeiro momento em que foi concebida no seio de sua mãe Ana, foi preservada por Deus de qualquer situação de pecado. Ela é a cheia de Graça, aquela em quem não há qualquer des-graça; Ela não é a dona da Graça, mas a completamente cheia de Graça. É a agraciada, sem mancha de inimizade. Não teve méritos para tal, foi escolhida. É a Eleita! Os méritos são todos do Cordeiro que Dela haveria de nascer: porque Ele era o Cordeiro sem mácula, Ela é a Cordeira Imaculada. Os méritos de Cristo antecipam se ao Seu nascimento e revestem a Mãe desde o instante primeiro da sua Conceição.
Toda a vida que rebrota canta o mistério que a faz nascer e é sempre para nós um sorriso de Deus. Também a de Maria.
Porque ia ser Mãe do Cordeiro foi preservada de toda a inimizade, daquela mancha negativa que a todos assinala. Ela e só ela pode fazer o Senhor exclamar: «Como és bela, minha amada, como és bela! És toda bela, minha amada e não tens um só defeito!» (Cant. 4:1.7)
Que o Senhor exclame assim!
Que o Senhor nos faça exclamar assim!
Que a Igreja nossa mãe cante assim!
Que a Humanidade exulte assim!
Ó Maria, Mãe de Jesus, bela cordeirinha sem mancha, já que sois concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!
Chama do Carmo I NS 47 6 Dezembro 2009

Domingo II do Advento

Ele vem vindo

Não ouvistes os passos silenciosos?
Ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre!
A cada momento e a cada estação,
a cada dia e a cada noite,
ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre!
Várias cantigas cantei,
em vários disposições de espírito,
mas as suas notas sempre proclamaram:
ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre!
Nos dias perfumados de abril luminoso,
pelo caminho do bosque
ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre!
Na sombra chuvosa das noites de junho,
na carruagem trovejante das nuvens,
ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre!
De tristeza em tristeza,
são os seus passos que pisam o meu coração!
E é o contato de ouro de seus pés
que faz brilhar minha alegria!
Tagore

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Em retiro

Durante toda a semana os religiosos da nossa Província estão em retiro anual. (Não todos, claro!) São momentos de silêncio e oração mais intensos junto ao Menino Jesus de Praga, em Avessadas. Associam-se a estes momentos intensos os irmãos da Antiga Observância. O retiro é orientado pelo bom amigo da Ordem, D. Augusto César.

Primeira vela do Advento

Senhor, Tu vens das alturas,
Tu vens do coração largo e infinito de Deus,
Tu vens, à procura do teu lugar,
no abrigo estreito do meu coração.

Sinto ainda o meu coração tão pesado,
tão dobrado, tão encolhido, pela ansiedade,
tão inclinado, tão aterrado, para o chão das coisas,
tão agitado, no bater apressado dos meus passos!

Senhor, cuida de mim, cuida do meu coração!
Acolhe-o, no regaço desta oração.
Acorda-o, limpa-o e desperta-o, para Ti,
e dá-lhe asas, fôlego, vida nova, respiração.

Senhor, dilata e fortalece,
renova e santifica o meu coração,
Fá-lo abundar e progredir na prática da caridade,
que é a alma e o coração da Tua Santidade em mim!

Vem, depressa, Senhor, com todos os teus santos!
Na Hora esperada da tua vinda gloriosa,
esteja livre e leve, são e santo o meu coração,
Tão voltado para Ti, como próximo de meu irmão!

domingo, 29 de novembro de 2009

BB. Dionísio da Natividade e Redento da Cruz

Celebramos hoje os primeiros mártires Carmelitas Descalços. São os Bem-aventurados Dionísio da Natividade e Redento da Cruz.Dionísio foi baptizado com o nome de Pedro Berthelot, era cientista filho de marinheiros, oriundo de Honfleur, França, onde nasceu em 1600. Aos vinte anos serviu a armada holandesa, mas rapidamente se colocou ao serviço de Portugal. Foi ordenado sacerdote na nossa Ordem, de pois de em vão ter tentado ser jesuíta. Já Carmelita participou na defeza de Goa.
Redento da Cruz nasceu em Cunha, Paredes de Coura, em 1598 e foi baptizado com o nome de Tomás Rodrigues. Aos 19 anos abandonou o terrunho natal, fez-se militar, partindo na aventura das Descobertas que tanto seduzia a juventude portuguesa de então. Conheceu a glória das armas na Praça de Meliapor.
Os destinos de ambos cruzaram-se no Convento do Carmo de Goa. Juntamente com mais sessenta companheiros sofreram o martírio no dia 29 de Novembro de 1638, na cidade de Achem, Ilha da Sumatra, Indonésia, às mãos dos muçulmanos.
Foram beatificados em 1900 pelo Papa Leão XIII.

Voz do Papa:
Amados Dionísio e Redento:
diferentes passados vos uniram na mesma aventura da evangelização. Tu, Dionísio. eras navegante e neste ofício serviste os reis de França e Portugal. E, quem diria, foi numa dessas viagens que o Senhor te chamou! Em Goa conheceste o padre Carmelita Filipe da Santíssima Trindade, com quem, em conversa, percebeste a indesmentível necessidade de mudar de vida. Ingressaste na Ordem dos Carmelitas Descalços onde professaste com o nome da Natividade. Muito rapidamente começaste a brilhar na comunidade com luz própria pelo teu exemplo de virtude. Algumas vezes — afirmam os que te conheceram — viram-te rodeado de resplendor celeste enquanto oravas. Porém, o embaixador Francisco de Sousa acabou por ser a razão para que desse o passo definitivo na tua aventura para Deus.
Junto com o teu irmão Redento da Cruz que te acompanhou, nada menos que chegados à Ilha de Achem os muçulmanos turcos vos agrediram. Quiseram forçar-vos a apostatar a vossa fé católica, mas ambos permanecestes firmes. A vossa firmeza exasperou os muçulmanos que vos condenaram à pena de morte. Para a evitar teria bastado dizer que abandonáveis a fé católica e abraçaríeis a muçulmana. Bastaria uma palavra para evitar o martírio.
Tu, Redento, fostes dos primeiros a ser executado. Tu, porém, Dionísio, pedis-te para ser dos últimos, a fim de poderes confortar os demais, até que um golpe de espada te dividiu o crânio em dois e assim te abriu a porta da vida que nunca termina.

sábado, 28 de novembro de 2009

Que os vossos corações não se tornem pesados

Iniciamos neste domingo um novo ano litúrgico. Começa o Advento. Vamos preparar o Natal. No Evangelho de hoje Jesus anuncia aos seus discípulos que no fim dos tempos voltará novamente. Entretanto, este é o tempo da esperança e da espera desse acontecimento final da história da humanidade. É este um tempo de vigilância e oração, para não desfalecermos, podermos suportar o rigor dos dias, permanecer de pé diante d’Aquele que vem e sermos achados justos.
É isto surpreendente e mete-nos medo? Sim. Por isso o Senhor nos exorta à vigilância. O discípulo deve manter vigilante o seu coração e as suas condutas morais. A que devemos estar a tentos? A que o nosso coração não se embote e se torne dormente e pesado.
Já que nos aprestamos a abrir um novo ano, nada melhor que meditar sobre o fim, sobre o último dia. E se hoje caísse esse dia grande e terrível que o Senhor anuncia para o fim dos tempos: Estaria eu preparado?
Há dois domingos meditávamos nisto: o mais provável para mim é que o fim do mundo seja o dia da minha morte. Como enfrento essa hora? Estou consciente de que Cristo está por detrás da última hora? De que serei levado à sua presença? Como é (será) estar presente no momento em que se definirá a minha eternidade?
O próprio Senhor nos dá a chave no Evangelho deste domingo, quando nos diz: «Tende cuidado convosco: que os vossos corações não se tornem pesados por causa da vida libertina, da embriaguez e das preocupações da vida.»
Palavras duríssimas. E surpreendente maneira de preparar o Natal! Sim. Mas não nos surpreenda nunca o convite à revisão de vida. Saibamos até agradecê-lo. Vejamos:
— Levo uma vida tão descuidada que adormeça o meu coração? Saberei despertar quem anda insensível ? Ou de tão anestesiado nem me dou conta? O lema da minha vida é fazer o que me apetece e o que me dá gozo?
— Digo sou livre de fazer o que quero, para justificar a minha conduta nem sempre correcta e jamais questionada para não ter de a mudar?
— Entorpeceu-se o meu coração por causa da embriaguez? O álcool em excesso é uma forma de evasão da realidade que não queremos enfrentar. Quantas vezes tomo uma atitude evasiva quando o Senhor bate à porta do meu coração? Quantas vezes evito encontrar-me com o Senhor, fujo da Sua presença, evito a oração e os compromissos com a comunidade de fé só porque teria de fazer na minha vida umas mudanças e renúncias a que não estou afeito?
— Ficou o meu coração pesado por causa das preocupações da vida? Deixo-me absorver tanto pelas preocupações do dia a dia, ainda que legítimas, ao ponto de afogar em mim o lugar e a acção da Palavra de Deus?
Estamos a começar um novo ano cristão. Posso começá-lo porque obedecendo à roda do tempo ele começa sempre sem minha licença, e assim o vivo da mesma maneira de sempre: desligado e descomprometido? Posso crer-me na presença de Deus e viver sugando alegrias passageiras que não alimentam antes cavam mais fundo o vazio em que vivo? Posso viver como chão pisado e duro dos caminhos onde semente alguma germina e dá fruto? Posso viver obcecado pelo mais e o maior: mais dinheiro e maior conta bancária, para ter um carro maior (ou dois, ou três), uma casa maior (ou duas, ou três)? (E há fome, e estamos em crise...)
O Senhor adverte que as preocupações da vida quotidiana afogam a sua Palavra e a sua Presença. Quantas coisas nos preocupam! A quantas coisas, licitamente, eu devo dar respostas e mais respostas! Mas, ai de nós, quando o coração se torna pesado, opresso e angustiado porque as preocupações são tantas que não vemos a aurora despontara no horizonte.
É Advento. Quem se propõe caminhar ao encontro definitivo com o Senhor deve ir ligeiro, sem pesos desnecessários que só amargam a vida e peiam a caminhada.
O Senhor vem. Encontrar-me-ei com Ele. Como O encararei: desentendido do mundo porque entorpecido e preocupado comigo, ou pastoreando o mundo levando-o ao encontro definitivo com o seu Senhor?

Foi há 441 anos!

No Verão de 1568 don rafael Mejía y Vellásquez, cavaleiro de Ávila, pôs à disposição da Madre Teresa de Jesus, uma casa que possuía em Duruelo, um lugar que naquela época não tinha mais de vinte famílias.
Depois duma lenta e penosa tramitação o P. Provincial autorizou a fundação, o que aconteceu no primeiro domingo do Advento, o dia 28 de Novembro de 1568.
Conta a Santa: «A preparação do conventinho não deu muito trabalho, porque ainda que se quisesse fazer mais não havia dinheiro.» E mais à frente, com ternura: «Nunca esquecerei uma pequena cruz de madeira sobre a pia da água benta, que tinha nela colada uma imagem de Cristo, que dava mais devoção do que se fosse tela bem pintada.»
Frei João de São Matias, de 26 anos, emitiu profissão pública que assinou como Frei João da Cruz, logo depois recebeu a profissão de Frei António de Jesus e Frei José de Cristo. Prometeram a Deus, à Santíssima Virgem e ao Geral da Ordem seguir a Regra Primitiva, sem mitigação.
A nova Ordem foi logo aprovada por Pio V e depois confirmada em 1580 por Gregório XIII.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Primeiro Domingo do Advento

Homilia de abertura do Ano Pastoral

Meus irmãos e minhas irmãs:
Em cada Domingo fazemos memória da Paixão, da Morte e Ressurreição do Senhor. O tom deste Domingo é ainda o da glorificação do Senhor Jesus Cristo, o Rei do Universo. Esta festa não vem por acaso, foi criada em 1925 para convocar os cristãos para a militância — uma palavra muito pouco interessante e cristã, que vem de militia, de militar, combate. Foi, porém, posta diante do olhar e do coração dos cristãos para nos dizer que todos temos um trabalho duro pela frente. E o trabalho é sermos de Deus, trabalharmos para Deus e pela santificação do mundo. Escolhemos este dia de festa para fazermos o compromisso de serviço ao Carmo, por ser o dia da militância cristã. E para pedirmos ao Senhor do Universo que abençoe o nosso serviço durante o próximo ano; serviço que se traduzirá em oração, em dedicação do coração, em canseira e suor. Trago, irmãos, a esta homilia três palavras para partilhar convosco.

A primeira é dedicação, apresentação.
Hoje é o dia da Apresentação de Nossa Senhora. Dia em que foi levada ao Templo. Diz-nos uma tradição da Igreja que a menininha, ao chegar às escadas do Templo largou a mão da mãe, largou a mão do pai, arregaçou a saíta e subiu ligeira em direcção ao pórtico do Templo. Subiu sozinha, sem ajuda, e deu -Lhe toda a sua vida, minuto a minuto, segundo a segundo. Para isso teve de deixar o pai, a mãe e subir sem hesitar, sem medo de cair. Subiu, subiu para servir o Senhor.
Ainda bem que nos calhou rezar esta Oração de Compromisso neste dia em que Nossa Senhora subiu uma a uma as escadas do Templo, para dedicar a sua vida ao Senhor, como que dizendo: — Sou de Deus, para servir a Deus, nada mais que Deus!
É isto que se pede aos cristãos: que sejam de Deus! Sede, pois, rápidos na resposta ao Senhor! É isto que se pede a quem frequenta a Eucaristia, a quem vem a um Encontro com a Bíblia, quem embeleza os altares… O que faz um cristão aí? Faz um serviço, uma dedicação, uma entrega ao Senhor! Digo-vos isto neste dia, não para que me imiteis a mim: não iríeis longe. Nem para imitardes o Pe. Caetano: iríeis mais longe. Não, não imiteis nenhum dos nosso padres, nem o Provincial, nem o nosso Bispo, nem o Santo Padre. Só imitaríeis homens! Imitai Nossa Senhora! Imitai aquela que muito nova subiu para servir! Para ser só de Deus.
Inclino-me, oro e abençoo aqueles que suam e lhes dói a cabeça e o corpo por dispensarem o seu tempo no serviço a Deus, nesta templo do Carmo. Agradeço, louvo e abençoo os que servem a Deus nesta comunidade cuidando singelamente dos irmãos.
Bom trabalho, boa dedicação, boa entrega! E quando vos faltarem as forças, quando o vento frio e a chuva não vos deixar seguir caminho, orai e olhai para Nossa Senhora subindo sem hesitar para servir a Deus.

Segunda palavra, Ano Sacerdotal.
E estando a abrir o nosso Ano Pastoral, tinha de falar dos sacerdotes. Falo rápido, curto e bem. Há dois dias atrás, no dia 19, festejámos São Rafael Kalinowski, que disse: «Não sou meu, sou herança dos outros». Olhai que tenho meditado muito nesta frase, durante as últimas semanas! Eu, sacerdote, não sou meu, sou herança vossa, sou para vós!
Os sacerdotes somos vossos, os sacerdotes somos da Igreja. Cuidemo-los para que possam servir cada vez mais e melhor a Deus nos irmãos! Os sacerdotes somos uma grande herança para a Igreja, para cada um de vós. Somos a vossa herança, a vossa propriedade! Que o Senhor incline o seu olhar sobre nós, sacerdotes, e vos saibamos abençoar, alimentar e guiar todos os dias da vossa vida. Irmãos, os sacerdotes são vossos, tratai-os bem; não com os pés mas com o coração!

Terceira palavra, Cristo Rei.
Esta festa surgiu para animar os cristãos a serem fortes e valentes no testemunho da fé, e também para mostrar que só existe um Rei. Deixai que neste dia vos conte uma história sobre o modo de servirmos a Deus.
Conta-se que um rei quando chegava a alguma localidade, tirava do alforge real bastas moedas de ouro que semeava sobre a cabeça dos súbditos. Semeava para a direita e para a esquerda e o povo, esbaforido, baixava-se e gatinhava para apanhar as moedas do rei. Baixava-se? Não. Houve um que não se baixou.
Perguntou-lhe então, o rei: — Tu não apanhas as moedas! São de ouro, não queres ser rico?
— Não, respondeu o súbdito. Eu sirvo o meu rei.
É aqui que nos devemos deter, meus irmãos: A quem servimos? Se servimos o nosso Rei como O servimos? Se servimos outro rei, estamos mal: não servimos para nada. Sirvamos, pois, o nosso Rei. Sirvamos a Cristo Rei, inteiros e direitos no serviço aos irmãos. Não nos verguemos à procura de riquezas; mas fiquemos direitos, de pé, diante d’Ele ainda que tenhamos muitas vezes de vergar-nos para ajudar e abraçar aqueles a quem ninguém quer. (Não são reis nem têm ouro!)
Com esta dedicação, com esta amizade e com esta fidelidade a Igreja nos pede que sirvamos a Cristo Rei. Permaneçamos inteiros diante d’Ele. Não nos baixemos por baixezas.
Eis a festa de Cristo Rei: sirvamos o Senhor nos irmãos, ainda que para isso nos tenhamos de inclinar diante do corpo de Deus, que são os irmãos pobres.
Que assim seja.

Frei João Costa
21 Novembro ´09

domingo, 22 de novembro de 2009

Jesus, tu és o Cristo

Jesus, Tu és o Cristo, o Messias enviado de Deus!
Senhor, venha a nós o Teu reino.

Jesus, Tu és o nosso único Salvador!
Senhor, venha a nós o Teu reino.

Jesus, Tu és o nosso Rei!
Senhor, venha a nós o Teu reino.

Jesus, Tu és o Senhor!
Senhor, venha a nós o Teu reino.

Jesus, Tu és o Senhor do Universo, o Senhor do Mundo!
Senhor, venha a nós o Teu reino.

Jesus, Tu és a Testemunha fiel do Amor do Pai!
Senhor, venha a nós o Teu reino.

Jesus, Tu és verdadeiramente o nosso Deus!
Senhor, venha a nós o Teu reino.

Jesus, Tu és o Descendente de David!
Senhor, venha a nós o Teu reino.

Jesus, Tu és o Filho do Homem, descende sobre as nuvens;
Senhor, venha a nós o Teu reino.

Jesus, Tu és o Príncipe, o mais belo de todos os filhos dos homens!
Senhor, venha a nós o Teu reino.

Jesus, Tu és o Alfa, o sentido primeiro e o princípio de toda a nossa Vida!
Senhor, venha a nós o Teu reino.

Jesus, Tu és o Ómega, a meta última e o final feliz da nossa Vida!
Senhor, venha a nós o Teu reino.

sábado, 21 de novembro de 2009

A vida inteira

Falamos de Ti
como se Tu nos tivesses amado primeiro uma só vez.
É, porém, dia após dia, a vida inteira,
que Tu nos amas primeiro.
Quando acordo pela manhã e elevo para Ti a minha alma,
Tu és o primeiro,
Tu amas-me primeiro.
Se pela madrugada me levanto,
e logo
para Ti a minha alma e a minha oração elevo,
Tu precedes-me,
Tu já me amaste primeiro.
É sempre assim.
E nós, ingratos,
falamos como se Tu nos tivesses amado primeiro
uma só vez…
(Soren Kierkgaard)

Obrigado, grande Rei!

Terminamos o ano litúrgico colocando Jesus no lugar mais alto das nossas vidas. Não é uma entronização encenada de poderes e resplendores que muito encenam e nada são. O que sim, o que nós declaramos com a nossa presença nas igrejas e com a celebração desta festa é que Jesus é a nossa referência maior, e o referente de toda a pessoa que trabalha pela verdade e pela justiça, pela reconciliação e pela paz.
Jesus é rei porque anunciou e inaugurou o reino de Deus. Mas o que é o reino de Deus? Aqui fica a resposta com as respostas erradas. Só depois vem a certa.

Os nacionalistas
identificavam o reino de Deus com a restauração da monarquia do célebre rei David. Esse reconhecimento implicava obviamente um confronto militar com o Império Romano que ocupava Jerusalém. Jesus nunca assumiu esta posição.

Os sacerdotes
identificavam o reino de Deus com a restauração do Templo de Jerusalém. Jesus jamais assumiu essa opção; antes preferiu chamar ao Templo uma «cova de ladrões» e um «mercado».

Os fariseus
identificavam o reino de Deus com o império da Lei. Segundo eles o Messias ensinaria todo o Povo a cumprir excelentemente a Lei e assim se construiria o reino de Deus. Esta também não é a opção de Jesus, que sempre pôs a Lei ao serviço do homem!

Jesus
seguiu por outro caminho e identificou o reino de Deus com a vida do povo pobre e oprimido. Jesus é rei porque cura os doentes e dá vida aos mortos; porque veio trazer vida e vida em abundância. Jesus é rei e reina na cruz, desde a pobreza e o despojamento, o não-poder e a identificação com os pequeninos. Jesus é rei porque proclama e inaugura o reino de Deus, um reino que não se identifica nem com a monarquia nem com o Templo nem com a Lei, apenas com o povo pobre. O poder de Jesus Rei é o poder de libertar da opressão.

Para nós
proclamar Cristo como Rei é viver diariamente os valores do seu reinado. Ele quer ser proclamado Rei pela humildade do nosso serviço à vida, pelo nosso compromisso com os pobres, pela afirmação do nosso testemunho pessoal nos ambientes onde acontece a nossa vida: nas nossas famílias, nas nossas escolas, nos nossos trabalhos, nos nossos amigos. Jesus é hoje Rei se O soubermos afirmar como Ele se disse a Si mesmo e aos mesmos a quem Ele se disse e por quem ofereceu a Sua vida.
Na solenidade de hoje proclamamos que Jesus é Rei, porém, convém recordar o aviso que Ele nos deixou: «O meu reino não é deste mundo»!
Afinal a sua autoridade e o seu poder encontram-se na sua maneira de viver, de se relacionar com as pessoas, de estar próximo dos desamparados e dos sofredores.
Jesus não impõe a sua presença. Jesus não castiga nem condena, nem excomunga nunca ninguém. Jesus apenas convence a quem tem fome de libertação. Ele liberta e fermenta em nós a comunhão e a libertação.

Nós
somos o rosto da Igreja. E cabe-nos a grata tarefa de mostrar aos homens e mulheres deste mundo o rosto amoroso e acolhedor de Deus. É preciso para isso púlpitos e sermões? Não. É bastante que o digamos com a experiência da vida no dia a dia.
E que Deus temos nós experimentado? Sempre que participamos na Eucaristia saímos libertados que libertam, ou o encontro com Ele nada liberta em nós, a nada nos compromete, a nada nos impele? A sua presença clara e luminosa e o seu olhar lavam-nos os olhos a fim de O reconhecermos nos pobres e necessitados? Assim reina Jesus, hoje e sempre! Na medida em que o acreditemos — que acreditemos na maneira sem poder de reinar —, assim nós iremos desvelando a presença do reino salvador de Deus no nosso mundo, mas que, sobretudo, como dizia Jesus, está presente em cada um de nós. Obrigado, ó grande Rei!
Chama do Carmo I NS 45 I 22 Outubro 2009

Venha a nós o vosso reino!

Pai nosso que estás e reinas no Céu
que estás também e queres reinar na Terra
ajuda-nos a ser e viver como irmãos.

Que o teu nome seja bendito, santificado, respeitado;
que todos Te conheçam,
e que nós Te demos a conhecer na nossa vida.

Que venha o teu Reino: que venha a justiça,
a solidariedade, a paz:
que ninguém morra de fome, nem de sede, nem de ódio;
que ninguém seja explorado, oprimido,
que ninguém seja excluído, marginalizado, descriminado.

Que venha o teu Reino, o teu Espírito,
e se apodere dos nossos corações
e comece neles a reinar com força,
para que nos empenhemos já em fazer a tua vontade
na terra, como se faz no céu;
para que antecipemos já no solo
o reino de solidariedade que há no Céu.
Amen.
(José E. Ruiz de Galarreta)

Breve Sumário da História de Deus

«Ainda que todas as coisas passadas sejam notórias a Vossas Altezas, a história de Deus tem tais profundezas que nunca se perdem ser recontadas.» (Gil Vicente, Auto do Breve Sumário) e assim se vai repondo em cena o Breve Sumário da História de Deus, que o encenador Nuno Carinhas justifica por ser «absolutamente pertinente» debater a vida e a religião; porque «pode estar a nossa sociedade arredada desse livro fundamental que é a Bíblia?»; porque «parece que há um luxo mais entre os católicos que entre os protestantes, de não querer saber, de não querer reflectir.»
A ver no Teatro Nacional São João, até 20 de Dezembro.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Alakrana

A Estrela do Mar é Nossa Senhora do Carmo. Em Espanha os marítimos da Galiza e do País VCasco, entre outros, têm-na por padroeira. Num dos portos viscaínos (perdoem-me erros político-histórico-geográficos, se os há.) existe uma capela subaquática dedicada a Nossa Senhora do Carmo. Não há barco de pescadores que por ali passe que não se sinta abençoado por tão boa padroeira. E também é costume que uma imagem do Carmo presida a cada navio. É a tradição.
O Alakrana é um pesqueiro basco. Nos últimos tempos foi aprisionado ao largo da Somália. O seu capitão Ricardo Blach narrou ultimamente que depois do pesqueiro ter sido sequestrado por piratas samalis estes lançaram borda fora a imagem de Nossa Senhora do Carmo, que agora descansa no fundo dos oceanos.
Mas podia ter sido pior. O capitão contou que os sequestradores ainda se mostraram benignos, «porque se fossem os daquele clã (que se encontrava ao largo) tínheis morrido».
«Verdade ou mentira não sei, disse o capitão, pois passamos por tanto que até deliramos!».

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Preces pelos sacerdotes

Maria, Mãe dos sacerdotes, intercede junto do Seu filho por todos nós. Irmãos e irmãs, peçamos a Maria que proteja todos os sacerdotes para que possam realizar com amor e dedicação o seu apostolado. Oremos ao Senhor: — Maria, Mãe de Deus, rogai por nós.

1. Peçamos a intercessão de Maria por todos os vocacionados, para que a Mãe os ajude a discernir a sua vocação na Igreja de Cristo. Oremos ao Senhor.

2. Peçamos a intercessão de Maria por todos os neo-sacerdotes, para que encontrem na Mãe o testemunho, modelo de vida e de missão, para realizarem o seu apostolado na Igreja de Cristo. Oremos ao Senhor.

3. Peçamos a intercessão de Maria por todos os sacerdotes enfermos e pelos debilitados que já realizaram o seu apostolado com amor e dedicação, para que encontrem na Mãe conforto e carinho nas horas de maior necessidade. Oremos ao Senhor.

4. Peçamos por intercessão de Maria por todos os sacerdotes falecidos, para que a Mãe interceda por eles como advogada junto de seu Filho Jesus. Oremos ao Senhor.

V. Ó Jesus, Pastor Eterno das nossas almas,
R. Enviai bons trabalhadores para a Vossa seara.

Pai Nosso.

Oração final
Ó Jesus, Mestre divino, que chamastes os Apóstolos a seguir-Vos, continuai a passar pelos nossos caminhos, pelas nossas famílias, pelas nossas escolas e continuai a repetir o convite a muitos dos nossos jovens. Dai alegria e coragem às pessoas convidadas. Dai-lhes força para que vos sejam fiéis como apóstolos leigos, como sacerdotes, como religiosos e religiosas, para o bem do Povo de Deus e de toda a Humanidade. Amen.

domingo, 15 de novembro de 2009

Tiradas (II)

«Durante o Ano Sacerdotal vou levar os miúdos da catequese ao Seminário e a um convento; não quero que lhes acontece o que me aconteceu a mim: só fui a um Carmelo quando tinha 50 anos! Encontrei lá uma noviça linda como as estrelas! Entrou lá contra a vontade da família, mas agora tem uma saobrinha de 14 anos que diz: — Vou ser como a tia!
Eu pobre de mim, não tenho um sobrinho que diga: — quero ser padre como o tio!»
(Outro participante do XV Fórum Sacerdotal)

sábado, 14 de novembro de 2009

A influência da família em S. Teresa

A família é a primeira escola onde se aprende a ser pessoa em relação (acatar ordens, negociar, pensar nos outros, renunciar a certos gostos, ser generosos, partilhar, dedicar-se, dar e receber carinho).
A família de Santa Teresa terá alguma coisa a dizer-nos, hoje? Dom Alonso perdeu a sua primeira mulher. Ficou viúvo muito novo, com dois filhos, e voltou a casar. Teresa (28.3.1515) é filha do segundo casamento de Dom Alonso com Dona Beatriz de Ahumada (uma jovem de Olmedo, de 15 anos). Dois filhos do primeiro casamento, mais dez do segundo, fazem com que na família de Teresa haja 12 irmãos.
Teresa já é freira e os seus confessores mandam-lhe que faça um relato da sua vida espiritual, das mercês que o Senhor lhe faz. Ela remonta à infância. Começa por dizer: “O ter pais virtuosos e tementes de Deus me deveria bastar se eu não fosse tão ruim…, com o que o Senhor me favoreceu para ser boa” (V 1, 1).
Teresa reconhece que tudo o que é em adulta começou a forjar-se na infância, vendo como viviam os pais, relacionando-se com os irmãos, partilhando a amizade com os seus familiares. Vamos dividir esta reflexão em três alíneas: Pais, irmãos e familiares. Nascemos, vivemos e morremos entre eles. Deles e com eles, aprendemos a ser pessoas.

1. OS PAIS
Teresa reconhece a influência de seus pais, as suas virtudes, como viviam a sua relação com Deus…Para ela foram um dom de Deus e o espelho onde se revia.
1. Seu pai era afeiçoado “a ler bons livros, e por isso os tinha em vernáculo para que os filhos os lessem.” A mãe gostava dos “livros de cavalaria” (V 1,1). O resultado foi que estes costumes dos pais despertaram em Teresa o gosto pela leitura.
Quinhentos anos depois, muitos de nós continuamos a acreditar na influência educativa que tem a vida dos pais na dos filhos: as reacções, conversas, gestos, divertimentos, esperanças, crenças… tudo educa. Ser pai é transmitir vida e a tarefa não termina com dar à luz os filhos.
2. “O cuidado que a minha mãe tinha em nos fazer rezar e em sermos devotos de Nossa Senhora e de alguns santos, começou a despertar-me, na idade – segundo creio – de seis ou sete anos”.
Actualmente, muitos de nós continuamos a defender a necessidade de pôr os filhos em contacto com Deus, de educar a sua dimensão transcendente, de agradecer a Deus a vida, de rezar. Porque, nos nossos dias, manifestar publicamente a fé é um acto de coragem e coerência. E porque teremos de nos acobardar perante os que põem em ridículo a nossa religião? A vivência da fé na família continua a ser actual e necessária para o crescimento equilibrado dos filhos.
3. “Era meu pai um homem de muita caridade para com os pobres e de piedade para com os doentes (…), era de grande verdade. Nunca ninguém o viu jurar ou murmurar. Sobremaneira honesto”. “Ajudava-me não ver nos meus pais senão apoio para a virtude: tinham muitas” (V 1, 2).
Hoje, muitos de nós continuamos a apostar em recuperar o valor da verdade, da honradez e da honestidade. Se, na sociedade, respiramos mentira, egoísmo, deslealdade e ânsia de poder a qualquer preço, é porque na família não “se dá valor aos valores”. É urgente recuperar a eficácia da educação das virtudes: fortaleza, temperança, prudência, justiça, fé, esperança, caridade.
4. “A minha mãe tinha também muitas virtudes, e passou a vida com grandes enfermidades. Grandíssima honestidade (…), muito serena e de grande entendimento” (V 1, 3).
Quinhentos anos depois, continuamos a reconhecer a grandeza das nossas mães. E surpreendemo-nos a fazer coisas que elas faziam, usando expressões que elas diziam, admirando e agradecendo uma vida de entrega silenciosa e muitas vezes sacrificada.
Continuamos a acreditar que ser mãe significa defender a vida do filho, antes e depois de ele nascer. Continuamos a acreditar que o sacrifício é um valor vigente e necessário na família e na sociedade. E que a capacidade de sofrimento e de renúncia torna o homem forte face às dificuldades. Serão fortes e sofridos os nossos jovens?
5. “Lembro-me de que, quando a minha mãe morreu, tinha eu pouco menos de doze anos de idade. Quando comecei a compreender o que tinha perdido, fui-me aflita a uma imagem de Nossa Senhora e supliquei-lhe com muitas lágrimas que Ela fosse minha mãe. Parece-me que, embora o tenha feito com candura, me tem valido” (V 1,7).
Quinhentos anos depois damo-nos conta de que o maior conflito, o maior sofrimento que existe numa família continua a ser a doença e a morte dos seres queridos.
A morte dos pais, quando os filhos são ainda pequenos, envolve a família num mar de incerteza e insegurança. A solidão converte-se em companheira absoluta, surgem com força as perguntas pelo significado da existência e a pessoa fica como que desvalida, desprotegida pela ausência do pai ou da mãe. Quando se tem fé, pode-se recorrer ao Senhor, à Virgem Maria, pode-se rezar mesmo que não se compreenda, mas a dor e as lágrimas são inevitáveis: “Supliquei-lhe com muitas lágrimas que Ela fosse minha mãe”.
Vivemos numa sociedade cheia de contradições. Por um lado, envolve-nos a violência e a morte nos telejornais, nos filmes, nas séries televisivas e nos jogos de vídeo. Por outro, evitamos falar da outra vida, do mais além. Habituando os filhos a brincar com a morte, tiramos valor à vida.
“Foi coisa para louvar o Senhor a morte que teve (meu pai), e o desejo que tinha de morrer, os conselhos que nos deu… encarregando-nos que o encomendássemos a Deus… que víssemos como tudo acaba” (V 7, 15).

II. OS IRMÃOS
1. “Éramos três irmãs e nove irmãos. Todos se pareciam com seus pais – pela bondade de Deus – em serem virtuosos” (V 1, 4).
Quinhentos anos depois, os investigadores e estudiosos da família descobrem que a relação entre os pais determina a relação entre os irmãos. Se vêem coerência de vida nos pais, aprendem a ser coerentes.
2. “Tinha um irmão quase da minha idade (…) Juntávamo-nos a ler vidas de santos. (…) Espantava-nos muito dizer que pena e glória era para sempre (…) Acontecia-nos estar muito tempo tratando disto e gostávamos de dizer muitas vezes: para sempre, sempre, sempre! Com pronunciar isto muito tempo era o Senhor servido que me ficasse impresso, na meninice, o caminho da verdade” (V 1, 5).
Hoje, continuamos a defender a importância das relações entre irmãos. Do ponto de vista social, são um ensaio, uma preparação para a inserção de crianças e jovens no grupo de amigos, na escola e na sociedade. Do ponto de vista pessoal, estas relações determinam o desenvolvimento e a configuração da personalidade e das crenças, porque os irmãos têm tendência a imitar-se.
3. “Dava esmola como podia, e podia pouco. Procurava solidão para rezar as minhas devoções, que eram bastantes, em especial o Rosário, de que a minha mãe era muito devota, e por isso nos fazia sê-lo” (V 1, 6).
Quinhentos anos depois, continuamos a observar que cada um sabe o que lhe ensinam. E que uma sociedade sem Deus, como a nossa, é fruto de uma série de causas que convergem, entre as quais está a educação na família e na escola. Em que momentos ou acontecimentos da vida reza a família de hoje? Quem vai ensinar os filhos a rezar quando desapareça a geração das avós? Que sinais religiosos vêem os nossos filhos nas suas casas? Em que celebrações da fé participa toda a família? Quem educa a dimensão transcendente das nossas crianças, adolescentes e jovens?
4. Teresa interessa-se pela sorte e negócios de seus irmãos: “Nada me dá tanto contentamento como o de que os meus irmãos, a quem tanto amo, tenham luz para querer o que é melhor. (E digo-lhes) agora que ponham todos os seus negócios em Suas mãos, que sua Majestade fará em tudo o que mais nos convém” (Carta 23, 3).

III. OS FAMILIARES1. “Tinha uns primos irmãos… Eram quase da minha idade, pouco mais velhos do que eu; andávamos sempre juntos… Recebi toda a má influência de uma familiar que frequentava muito a nossa casa”. Meu pai e minha irmã lamentavam muito esta amizade” (V 2, 4).
Quinhentos anos depois, assistimos ao efeito produzido por uma má companhia. “Sobretudo no tempo da mocidade deve ser maior o mal que causa” – diz Santa Teresa.
E a experiência diz-nos que isto continua a ser verdade. Muitos pais procuram com todo o cuidado uns bons amigos para os seus filhos e temem sempre que se juntem com más companhias.

CONCLUSÃODe tudo isto, fica-nos uma certeza: Santa Teresa teve a sorte e o dom da família. O ter pais virtuosos, irmãos com quem partilhava sonhos e esperanças… tudo isso fez dela uma mulher de fé firme, comprometida com a vida, dependente de Deus e com desejo de procurar e viver “a verdade de quando era menina”.
O testemunho da vida de Teresa de Jesus tem de nos dar forças para sermos defensores da família como sustentáculo e força da sociedade, como a melhor escola de valores. Tem de nos fortalecer na certeza de que a família é um valor para a sociedade e não podemos permitir que ninguém ponha em ridículo nem ataque a sua existência.
Deve tornar-nos críticos dos meios de comunicação e de todos o que se empenham em nos oferecer modelos de relações familiares em que não existe o respeito, nem o amor para com o outro, nem a defesa da vida e da dignidade humanas.
Basta-nos acender a televisão em qualquer dia, e até me atreveria a dizer a qualquer hora, para ver e escutar história de famílias em que tudo vale, histórias de jovens sem pudor, sem um questionamento sério sobre a vida. Onde está o direito da família a ser protegida pelo Estado se, na Televisão pública, se destrói a família?
A família actual vive num mar de incertezas. Assistimos a uma ausência de valores humanos, sociais e religiosos. Os pais preocupam-se com a educação dos filhos e do seu futuro. Os filhos vivem à margem dos pais. Perante este panorama, permitam-me que lhes diga:
Teresa escolheu viver na família carmelitana. Também nela havia grandes problemas para os quais era difícil encontrar solução. O que ela via na sua Ordem, vamos aplicá-lo ao que qualquer pai ou mãe vive na sua família.
“Estando um dia muito amargurada com o remédio da Ordem, disse-me o Senhor: ‘Faz o que estiver na tua mão e deixa-Me tu a Mim e não te preocupes com nada; goza do bem que te foi dado, que é muito grande; o meu Pai deleita-Se contigo e o Espírito Santo ama-te’ (CC 10ª,Toledo, Junho de 1570).
É esta a mensagem que eu gostaria de transmitir hoje aos pais e mães: que reconheçam o bem da família, que gozem dela, que agradeçam a Deus o dom dos filhos, que aproximem os filhos de Deus e os ponham nas Suas mãos. Que acreditem e vivam o amor que Deus lhes tem. Pusemos Deus fora dos nossos lares e até da nossa vida. Talvez esteja nisso todo o problema.
Que Teresa de Jesus nos sirva de modelo na oração, na fortaleza de vida, na confiança no Deus que nos salva e a Quem devemos tudo!
Júlia Villa Garcia
Trad. P. Vasco Nuno